Sección Investigación

 

A questão do suicídio da população LGBT: uma compreensão
fenomenológica existencial

 

Renata Ferreira de Azeredo

Río de Janiero, Brasil

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia  Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 

 


Resumo

Este estudo apresenta como tema, a atenção dedicada ao fenômeno do suicídio em correlação com a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT), na academia brasileira. Não se intencionou inscrever uma explicação para o número de suicídio contabilizado neste grupo, mas propor um estranhamento ao modo como as pesquisas vêm posicionando explicações prévias para estes casos. Para tanto, apresentamos uma reconstrução do campo, a partir de uma revisão de teses e dissertações nas bases de dados: Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD) e Catálogo de Teses e Dissertações do Portal Capes, sem recorte de ano de publicação, observando apenas como tem sido correlacionado o fenômeno do suicídio e a população LGBT. Em seguida lançamos mão do modo fenomenológico existencial de pensar, que nos ajuda a recuar ante às explicações vigentes referentes ao fenômeno do suicídio de LGBTs; para então, acolher outras possibilidades de tematizações, anteriores ao sentido do suicídio neste tempo e ao posicionamento identitário dessa população. Propõe-se a suspensão do catálogo de causas, que podem aprisionar uma determinada compreensibilidade para o suicídio de pessoas LGBTs, e a demora frente ao fenômeno, para acompanhar quais outras questões um(a) LGBT pode manifestar, nesta (in)decisão de abreviar o fim da vida, em sua condição mais originária.

 

Palavras-chave

Suicídio; População LGBT; Fenomenologia; Existência

 

Abstract

This research presents as theme, the attention dedicated to the phenomenon of suicide in correlation with the population of lesbians, gays, bisexuals, travestites, transsexuals and transgender (LGBT) in the Brazilian academy. It was not intended to provide an explanation for the suicide number counted in this group, but propose a strangeness to the way how research has been positioning previous explanations for these cases. Therefore, we present a reconstruction of the field, based on a review of theses and dissertations in the databases: Digital Library of Theses and Dissertations (BDTD) and Catalogue of Theses and Dissertation of Portal Capes, without year of publication, but observing how the phenomenon of suicide and the LGBT population has been correlated. Next we use the existential phenomenological way of thinking, which helps to back off from current explanations referring to the phenomenon of LGBT suicide; to then, be open to other thematic possibilities, priors to the sense of suicide at this time and the identity positioning of this population. It is proposed a suspension of the causes catalogue, which can trap a certain understanding for the suicide of LGBT population, and to stay longer at the phenomenon, to follow up what other issues a LGBT may manifest in this (in) decision of abbreviating the end of life, in its most originating condition.

 

Keywords

Suicide; LGBT population; Phenomenology; Existence

 

Introdução

É possível observar modulações na forma como o suicídio foi compreendido ao longo da história. Isto indica que este objeto de análise não é universal, ao contrário, é construído e desvelado a partir de possibilidades de sentido, afinadas à produção de compreensibilidades, de um horizonte histórico. Em outros tempos, o suicídio (etimologicamente sui = de si, caedes = morte voluntária) não era tomado da forma depreciativa, moralizante ou como indício de problema de saúde mental, como nos habituamos a ver atualmente (Feijoo, 2018). De acordo com Berenchtein Netto (2013, p. 18), foi sobretudo a partir de Santo Agostinho (séc. V) que a morte voluntária teria sido referida ao profano, séculos depois à compreensão de crime e no final da Idade Média, à patologia.

 

A produção científica é realizada em diálogo com as circunstâncias da sociedade, forjada no próprio horizonte histórico que a delimita e a constitui. Para que este estudo ganhe liberdade frente às determinações de compreensibilidades do suicídio, será necessário reconstruir o que tem sido produzido sobre o fenômeno, para então conquistar um estranhamento e questionar outra forma de sentido possível.

A Organização Mundial de Saúde (OMS)[1] avalia o suicídio como um problema de saúde pública. Ele estaria localizado entre as dez causas mais frequentes de morte. Estima-se um aumento mundial que representaria um milhão e meio de pessoas suicidando-se neste ano (2020). Grupos específicos são apresentados, por esta Organização, como possuidores de taxas mais elevadas de suicídio, são eles: refugiados e imigrantes; indígenas; lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e interssexuais (LGBTI); e pessoas privadas de liberdade.

 

Neste artigo apresentamos como tema a atenção dedicada ao fenômeno do suicídio em correlação com a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT[2]), na sociedade acadêmica brasileira. Caberia indagar o que diferenciaria este grupo, em sua lida com o viver/morrer, em relação à população em geral. Que especificidades tal população teria em relação à heterossexual no que concerne a (in)decisão de pôr fim à vida? Correlacionar suicídio à orientação sexual, poderia representar um aprisionamento de sentido, uma forma de preconceito? Seria possível considerar que nem todo LGBT adoece ou pensa em pôr fim à vida por sê-lo, ainda que conviva na mesma sociedade? Se sim, como o argumento causal se sustentaria? E ainda, se o grupo referente a pessoas LGBTs apresentam uma das taxas mais elevadas de suicídio, por que tal expressividade não é acompanhada pela academia?

 

Ressalta-se que se por um lado essa correlação é acolhida, uma vez que não se deseja negar ou invalidar os dados estatísticos que a sustentam, por outro, como argumento central deste artigo, contestamos a forma como tais dados estão sendo utilizados. Percebemos, nas pesquisas analisadas, que houve o embasamento determinístico causal tautológico acerca do fenômeno. No qual, para cada suicídio de um(a) LGBT, o sentido compreendido majoritariamente repousa no desafio de ser LGBT em uma sociedade heteronormativa. Como alargamento desta compreensibilidade, propomos um estranhamento ao modo como as pesquisas vêm posicionando explicações prévias para estes casos. Pois entendemos, a partir de visão fenomenológica e hermenêutica, que a forma hegemônica atual de produção de pesquisa, sobre esta temática, tem oferecido um arcabouço muito reduzido de possibilidades de significação.

 

Propõe-se um recuo frente ao fenômeno do suicídio de LGBTs, para a possibilidade de se acolherem outras tematizações; anteriores ao sentido de suicídio neste tempo e ao posicionamento identitário deste que o realiza. Por meio de um exercício de sustentação de abertura de sentidos, convida-se à suspeição do catálogo de causas, que podem aprisionar uma determinada compreensibilidade para o fenômeno, ainda que apresentem algum conforto ao atribuirem uma resposta sufucientemente convincente neste tempo. Propõe-se, demorar-se frente ao fenômeno e acompanhar quais outras questões - improváveis de virem à luz, ao já posicionar um argumento conclusivo - são reveladas por um (a) LGBT em (in) decisão de abreviar o fim da vida, diante da imprevisibilidade da existência.

 

Metodología

Para esta investigação, escolheu-se revisar a produção acadêmica brasileira, tendo como unidade de análise as Teses e as Dissertações que apresentem tal temática como objeto de estudo. A escolha de trabalhar com teses e dissertações, dentre outras produções científicas existentes, deu-se a partir do entendimento de que tais estudos gozariam de certa representatividade e sensibilidade às tendências do campo abordado, dada a centralidade do âmbito acadêmico, particularmente da pós-graduação stricto sensu. Tais pesquisas, por serem orientadas e seus resultados passarem por bancas de avaliação formadas, em geral, por especialistas das áreas de conhecimento em que são inseridas, validam a confiabilidade do material que será analisado. Além disso, pondera-se que um olhar sistemático sobre tal produção represente uma contribuição ao próprio desenvolvimento desse campo no Brasil.

 

No primeiro momento se manteve a correlação entre suicidio e população
LGBT (tida como uma das populações que apresentam taxa de risco cinco[3] vezes superior a seus pares heterossexuais) para investigar o que está sendo visto, acolhido e compreendido pela academia a partir desta ligação. Como será que as pesquisas acadêmicas têm abordado o suicídio? Quais estratégias de prevenção elas apóiam? Quais resultados estes estudos têm veiculado? Eles posicionam causa (s) para compreender o fenômeno? Se sim, quais seriam e em que se baseariam? É na esteira de tais questionamentos que se objetiva revisar a produção acadêmica brasileira.

 

Para isto, foi realizado uma busca em duas bases de dados amplamente conhecidas por pesquisadores brasileiros, Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD) e Catálogo de Teses e Dissertações do Portal Capes, correlacionando Suicídio e população LGBT. Utilizou-se os descritores “Suicídio AND LGBT”, “Suicídio AND Lésbicas”, “Suicídio AND Gay”, “Suicídio AND Bissexuais”, “Suicídio AND Trans”. Foram localizadas 14 produções (excluindo as repetidas), duas[4] delas foram retiradas desta amostra por não terem relação, direta ou indireta, com a temática pesquisada, totalizando assim 12 achados. Destes, oito foram publicados a partir de 2015, podendo indicar uma relação entre o aumento no número de suicídio e o aumento do interesse acadêmico. O quadro 1, abaixo, apresenta o uso dos descritores e as quantidades de registros localizados.

 

Quadro 1. Descritores e número de resultados obtidos em 01/01/2020.

 

Descritores

BDTD

Teses e

 Dissertações

 Capes

Suicídio AND Gay

8

4

Suicídio AND LGBT

3

3

Suicídio AND Bissexuais

3

3

Suicídio AND Lésbicas

3

3

Suicídio AND Trans

0

2

 

Fonte: As autoras, 2020.

 

A partir deste resultado, os títulos encontrados (quadro 2) foram analisados mais detidamente, para que fossem observados principalmente os métodos de pesquisa, os objetivos e os resultados alcançados.

 

Quadro 2. Relação dos trabalhos selecionados, em 01/01/2020.

 

Ano

Títulos

Base

1

2019

Vozes do silêncio: lesbofobias e a processualidade suicida

BDTD

2

2018

O gênero no comportamento suicida: o sofrimento psíquico em dissidências sexuais

BDTD

3

2018

A perspectiva familiar diante da revelação da orientação sexual de jovens e adultos

BDTD

4

2018

Vida, adoecimento e suicídio: racismo na produção do conhecimento sobre jovens negros/as LGBTTIs

Capes

5

2017

A sexualidade na escola: a voz do silêncio

BDTD

6

2016

Homofobia internalizada: o preconceito do homossexual contra si mesmo

BDTD

7

2016

Ideação suicida e fatores associados em estudantes universitários 

Capes

8

2015

Violência e consumo de drogas em lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais São Paulo – SP 2015

Capes

9

2013

Identidade e memória no imbricamento histórico-literário de Eleanor Marx, filha de Karl

BDTD

10

2008

Estigmas e esteriótipos sobre as lesbianidades e suas influências nas narrativas de histórias de vidas de lésbicas residentes em uma cidade do interior paulista

Capes

11

2007

Homossexualidade e Discriminação: o Preconceito Sexual Internalizado

BDTD

12

2005

Almas consumidas, corações incandescentes a busca de uma poética das tentativas femininas de suicídio na perspectiva bachelardiana do fogo

Capes

 

Fonte: As autoras, 2020.

 

Análise de dados

Por meio destes trabalhos, pode-se acompanhar como o fenômeno do suicídio tem sido compreendido na produção acadêmica brasileira. Considerando o exposto no quadro 2, temos na pesquisa número 1, uma dissertação apresentada à Universidade Estadual Paulista (UNESP), para obtenção do título de Mestra em Psicologia, de Yasmin Aparecida Cassetari da Silva (2019), intitulada: “Vozes do silêncio: lesbofobias e a processualidade suicida”. A autora visa refletir sobre “o processo suicida de jovens mulheres cisgêneros[5] lésbicas” (2019, p.8). Tal relação já é construída sob a assunção de que: “manifestações sociais de ojeriza e desrespeito em relação à orientação sexual assumida”, estariam por trás das decisões de pôr fim à vida. Silva (2019) trabalha com grupos focais e análise de discurso orientada pela perspectiva pós-feminista e queer[6]. Neste estudo ela aponta que debater sobre a invisibilização das lesbianidades representaria uma profilaxia para os processos suicidas. Ainda afirma que não se possa “assumir a lesbofobia como único fator para o processo suicida” (SILVA, 2019, p.17), por isso traz à cena outras causas que devem ser observadas. Estas seriam relativas aos marcadores sociais de diferença: “raça/cor/etnia, classe social, identidade de gênero, orientações sexuais, padrões corporais, regionalidades/localidades, faixa etária e outros” (p.17).

 

Com esta consideração, nota-se o risco de que seja construída uma generalização causal para o suicídio de “jovens mulheres cisgêneros lésbicas” (termo citado anteriormente), assentado ora na lesbofobia, ora na complexidade conjuntural de marcadores sociais de diferença. Desta forma poderia se explicar o processo suicida de mulheres que se assemelhassem a tais características. Depreende-se disto um modo de se fazer pesquisa: buscou-se as causas e, então, sinalizou-se a necessidade de construção de medidas que diminuam ou erradiquem o agente causador.

 

A pesquisa número dois é uma dissertação, apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) para a obtenção do título de Mestre em Psicologia Clínica e Cultura, de Felipe de Baeré Cavalcanti D’Albuquerque (2018). Ela é intitulada “O gênero no comportamento suicida: o sofrimento suicida em dissidências sexuais”. É indicado no título uma provável causa para o comportamento suicida desta população: a existência de uma especificidade de sofrimento psíquico que é marcada pela vivência de gênero e sexualidade dissidentes. Disto infere-se a compreensão de que, a não correspondência aos padrões normativos de sexualidade e de gênero da sociedade brasileira atual, descrita pelo autor como “machista e heterossexista”, promova um sofrimento que induz a tentativa de suicídio. Esta base de entendimento estabelece uma lógica determinística-causal, que tonaliza a compreensão do fenômeno do suicídio em dissidentes de sexualidade e gênero, em sua relação com o social.

 

É justamente ante a estes modos de pensar o fenômeno, que a fenomenologia existencial vem propor a prática de uma atitude antinatural, de suspensão de interpretações hegemônicas frente a uma determinada questão. Propõe-se com isso ater-se ao que se mostra, permitindo-se (se for o caso) contemplar outros sentidos vivenciados por este (a) que pensa em pôr fim à vida. De forma que a dissidência de sexualidade e de gênero não esgote a visibilidade do cenário existencial. Deste modo, ainda que a compreensibilidade apresentada por Silva (2019) e D’Albuquerque (2018), para o processo suicida em dissidentes sexuais e de gênero, não seja descartada, há, a partir da perspectiva fenomenológica, o convite a dar um passo atrás neste entendimento. Para acompanhar a tematização de outras questões que possam estar entrelaçadas neste jogo, neste processo de (in) decisão de pôr fim à vida, sem a suposição de nenhum sentido a priori por parte deste que pesquisa.

 

Ainda que Silva (2019) e D’Albuquerque (2018) considerem ser o suicídio um fenômeno que exceda justificativas deterministas, ao identificar padrões na manifestação do comportamento suicida, atrelados a classe social, idade, gênero, raça, orientação sexual e demais aspectos socioculturais. Ou seja, eles remetem ao social e às violências decorrentes de uma não adequação normativa, a justificativa para o ato de pôr fim à vida.

 

Para D’Albuquerque (2018) os principais fatores geradores de intenso sofrimento psíquico, que pode culminar em tentativas de suicídio seriam: os contextos de violências, a sensação de desamparo e desesperança, o baixo investimento na saúde mental dos indivíduos não-normativos, o sofrimento psíquico dos homens frente ao impacto da construção da masculinidade e sua não correspondência, bem como a performance dos padrões compulsórios de feminilidade. Para Silva (2019) estariam no isolamento social, nas manifestações lesbofóbicas, na lesbofobia internalizada, no abuso de substâncias nocivas à saúde e no desenvolvimento de quadros depressivos, ansiosos e outros sofrimentos psíquicos, a causa do suicídio e a composição de fatores de risco.

 

A pesquisa número dois considera que trabalhos acadêmicos poderiam estar se precipitando ao correlacionarem um alto índice de suicídio em população LGBT, incorrendo até na patologização e culpabilização dessas pessoas. Entretanto, ela conclui tal fenômeno caracterizando-o como homicídio social, cuja responsabilidade repousaria nos cenários discriminatórios, que precarizariam a vida de tal grupo. Explicando, portanto, correlacionando suicídio e população LGBT. Essa forma de “ver” o fenômeno retira do existir humano o seu caráter de abertura e de possibilidades ao instituir um fechamento para um contexto.

 

A pesquisa de número três é uma dissertação, foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), para obtenção do Título de Mestre em Psicologia, de Geysa Cristina Marcelino Nascimento. A autora visa investigar de que modo a revelação sexual de jovens adultos homossexuais tem repercutido na dinâmica familiar. A relação com o suicídio se dá uma vez que, segundo Nascimento (2018), “o apoio da família protege contra uma possível depressão e uso de substâncias como álcool e drogas, afastando de comportamentos de risco e de ideações suicidas” (NASCIMENTO, 2018, p.35). É válido notar que estes termos, além de tecer relações diretas entre depressão, uso de drogas e suicídio, indiretamente também culpabilizam famílias na (in) decisão de seus filhos em pôr fim à vida. O risco disto é que se ratifique uma padronização no processo de compreensão do fenômeno do suicídio, ocultando-se outras facetas que mereceriam ser questionadas.

 

A pesquisa de número quatro é uma dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), para obtenção do Título de Mestre em Psicologia de Paulo Vitor Palma Navasconi. O autor objetiva: discutir o modo como a literatura sobre suicídio aborda tal fenômeno em relação a jovens LGBTTIs; questionar a presença do marcador de raça, gênero e sexualidade nas discussões; e verificar o modo como pessoas negras LGBTTIs são representadas nestes estudos. Ou seja, mantém-se a tonalidade de se buscar quais seriam os fatores associados à presença de ideação suicida. Seriam estes efeitos da branquitude, do racismo e da vulnerabilidade endereçada à população LGBT, dentre outras formas de opressão?

 

Nesta pesquisa, Navasconi (2018) destaca o conceito de interseccionalidade como auxiliar para compreensão do fenômeno do suicídio. A partir disto posiciona uma relação entre suicídio e marcadores de vulnerabilidades sociais como raça, gênero, classe, dentre outros. Navasconi revela que, majoritariamente, as pesquisas sobre suicídio compreendem-no a partir de um viés normativo/binário e uni-racializado e, portanto, reivindica a inclusão de marcadores de gênero e sexualidade nas pesquisas.

 

Nossa proposta, aliada ao rigor da fenomenologia existencial e hermenêutica, seria a de suspender qualquer posicionamento anterior à compreensão do fenômeno, incluindo marcadores biológicos e sociais. Uma vez que entendemos ser humano como Dasein (Ser-aí), rompe-se com a tradição metafísica. Ou seja, o ser humano não é um ser identitário, que tem uma experiência, mas é, sim, o próprio experienciar. Isso desloca a questão de uma identidade, de uma pessoa ou uma consciência fechada em si, para a indagação sobre o sentido existencial do seu ser, apresentando-se como uma questão hermenêutica (Sá, 2015). Fica manifesto que a existência quando objetivada, restringe sua abertura, que é o próprio modo de ser do homem, em seu caráter de poder-ser (indeterminação), marcado pelo horizonte histórico que se encontra.

 

A pesquisa número cinco é uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Linguística e Ensino, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), para obtenção do título de Mestre em Linguística e Ensino, de Agilcelia Carvalho dos Santos, sob o título: “A sexualidade na escola: a voz do silêncio”. Visa analisar como alunos do 3º ano do Ensino Médio lidam com a questão da diversidade sexual e dos direitos dos alunos homossexuais. Segundo Santos (2017) haveria um tabu/silêncio a respeito da temática da diversidade sexual, o que promoveria um ambiente propício para o que ela chamou de “bullyng homofóbico” (SANTOS, 2017, p. 29), contribuindo para a evasão e fracasso acadêmico e pessoal de alunos homossexuais que, ainda segundo a pesquisadora, não suportariam a pressão física e psicológica sofrida e se voltariam para o uso de drogas e prática do suicídio.

 

Santos (2017) tece, desta forma, algumas explicações para eventuais suicídios de alunos homossexuais. E aponta como medida profilática a urgência de que se discuta, no ambiente escolar, a temática da diversidade sexual para diminuição da intolerância. Ou seja, a autora permanece no paradigma causal, busca compreender o fenômeno do suicídio elencando fatores que tenham sido os responsáveis pela irrupção do ato de pôr fim à vida, para então, sugerir alguma prevenção, que invariavelmente visa à correção do que fora elencado. Aqui vê-se que a proposta preventiva ocorre a partir da crença de que se tenha localizado uma causa fundamental e explicativa para a ocorrência de suicídio. E que retirando o agente causador, no caso a intolerância, suicídios deixariam de ocorrer.

 

A pesquisa número seis, trata-se de uma tese de doutorado em Psicologia Social, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), para obtenção do título de Doutor, de Pedro Paulo Sammarco Antunes (2016). O pesquisador verificou, através de entrevistas com 150 homens que admitiam sentir atração afetivo/sexual por outros homens, o nível de homofobia internalizada e seus prováveis impactos. Dentre estes, encontrou o suicídio. O autor aposta no questionamento ao heterossexismo como dispositivo de transformação da heteronormatividade. Esta seria a resposável por sustentar, segundo sua pesquisa, formas totalitárias de funcionamento da sociedade. Mecanismo semelhante ao da pesquisa cinco.

 

Antunes (2016) apresenta a distinção entre as correntes essencialista e existencialista e destaca Merleau-Ponty como referência de pensamento para afirmação de que “o homem se faz em sua própria existência” (ANTUNES, 2016, p. 318). Aliado também ao filósofo Jean Paul Sartre, Antunes (2016) afirma que “o homem passa toda a sua existência em um processo de devir” (ANTUNES, 2016, p. 319), chamado por Sartre, e relembrado por Antunes (2016), de facticidade. Exemplos de facticidade seriam o sexo biológico, família, país, cidade, cultura, etnia, raça, época, condição econômica. Tais condições, conjugadas à liberdade, combinariam uma nova situação, ou possibilidade. O autor cita que Sartre defende que “não importa o que foi feito do indivíduo, e sim o que o indivíduo faz com aquilo que foi feito dele” (ANTUNES, 2016, 319).

Entretanto, muito embora o autor/pesquisador admita a liberdade da existência frente às facticidades, finaliza por ratificar nas normas de gênero, na heteronormatividade, na misognia, no patriarcadao, no machismo, os elementos corroboradores da homofobia, do racismo, dentre outras vulnerabilidades. Tais elementos incidiriam essencialmente em “tendência à fragilidade psíquica, depressão, carência, vulnerabilidade, baixa autoestima, vergonha, culpa, medo, desconfiança, confusão, estresse, insegurança, ansiedade, angústia, insônia, queixas psicossomáticas e autodestruição” (Grifos meus) (ANTUNES, 2016, p. 322).

 

Esta pesquisa, a de Antunes (2016), é mais um exemplo do desafio que é suspender as verdades de nosso horizonte histórico para acolher o que de mais originário se apresenta no que se apresenta, sem recair num modo já sedimentado de compreensão.

 

Na pesquisa de número sete, já no título: “Ideação suicida e fatores associados em estudantes universitários”, encontra-se o posicionamento de que haja relação entre o fenômeno do suicídio e a vida universitária. O risco disto é que, novamente, posicionando a pesquisa nestes termos, não haja espaço para perceber o que apareceria de outro modo nos estudantes investigados. Esta dissertação de mestrado foi realizada junto ao programa de pós-graduação em Enfermagem na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). O autor, Hugo Gedeon Barros dos Santos (2016), aplicou o método de questionário fechado, para coleta de dados em 714 estudantes universitários. A análise deste material demonstrou que 9,9% dos estudantes tiveram ideações suicidas, a partir disto, foi criado um perfil epidemiológico e enumerado os fatores associados à presença de ideação suicida entre universitários (Santos, 2016, p. 40).

 

Quanto ao perfil epidemiológico, seriam as condições sociodemográficas (idade, sexo, estado civil, cor, orientação sexual, prática religiosa, morar ou não sozinho), aspectos do ambiente acadêmico (maturidade na resolução de conflitos, ingresso no mercado de trabalho), presença de sintomas depressivos e consumo de álcool, que o comporiam. No referido estudo as condições demográficas e sociais prevalentes foram: 18 a 24 anos, feminino, solteiro, parda, não morar sozinho, heterossexual, com prática religiosa, estando no primeiro ou segundo ano do curso. Além destes, a maioria dos entrevistados não apresentava sintomas depressivos e tinham um baixo risco no consumo de álcool.

 

Em relação aos fatores associados à presença de ideção suicida, a dissertação de Santos (2016) apontou que “embora a ideação suicida seja um evento multifatorial, (...) as variáveis orientação sexual (declarar-se homo e bissexual), a (não) prática religiosa, a tentativa de suicídio na família e a presença de sintomas de depressivos demonstraram-se como fatores associados à presença da ideação suicida nos estudantes universitários” (SANTOS, 2016, p.70).

 

Interessante notar que através da amostra de 63 estudantes, foram lançados recursos estatísticos de modo a esmiuçar as características destes respondentes. Mas, não justificou-se ou problematizou-se o uso destas características (idade, sexo, estado civil, classe econômica, cor, se mora sozinho, orientação sexual, prática religiosa, ano de curso, suicídio na família, entre amigos, sintomas depressivos) e não outras. Como se já estivesse compreendido, dado, fora de debate, a prevalência destas características na correlação à ideação suicida.

 

Não se trataria aqui de aumentar a lista dos fatores e das características que poderiam estar em correlação, como requisitam as pesquisas de Santos (2016) e Navasconi (2018). Ao contrário, compreendemos a impossibilidade de atingir uma verdade capaz de explicar um fenômeno da existência, como é o suicídio, de forma a reproduzir tal entendimento a outras ocorrências. Ainda que o horizonte de mundo seja compartilhado, existir, enquanto particularidade do Dasein, abre possibilidades de sentido que estão sempre em aberto, sem um desfecho determinado para o ser, que não é necessariamente e apenas, prisioneiro de uma determinação de mundo. O desfecho, da forma como o compreendemos, não refere-se a um fechamento, mas a uma abertura, ao que se des-fecha. Ao instituir-se um destino para a explicação desta correlação, por meio de constatações calculáveis e corretas, numa ambição totalizante de capturar o fenômeno e sobre ele instituir-se um controle, corre-se “o perigo de o verdadeiro se retirar do correto” (HEIDEGGER, 2012, p.29), pois outras possibilidades de des-fecho (o que fecha-abrindo), inexatas ao homem, são sonegadas.

 

A pesquisa número oito, trata-se de uma tese de doutorado, intitulada: “Violência e consumo de drogas em Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais”, realizada no Programa de Ciências da Saúde na Faculdade de Medicina do ABC de São Paulo em 2015. A autora, Grayce Alencar Albuquerque, objetiva analisar a prevalência e a associação de violência, consumo de drogas e comportamento de risco em LGBTs. Nesta tese, no formato de três estudos quantitativos, o resultado que dialoga com a temática do suicidio é encontrado no terceito artigo, intitulado: “Relação entre violência, consumo de drogas e tentativas de suicídio em lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros”. Nele, Albuquerque (2015) encontra associação entre tentativa de suicídio e violência física, e entre comportamento suicida e consumo de drogas, mas não consegue analisar as implicações destas associações por orientação sexual. Ainda assim conclui, lançando mão de outros estudos existentes (Hernández & Torres, 2012; Rosário et al, 2006; Dudley et al, 2004), que a violência e consumo de drogas possam influenciar as tentativas de suicídio em LGBTs.

 

A pesquisa número nove, tratou-se de uma dissertação de mestrado no Programa de Estudos da Linguagem na Universidade Federal de Goiás (UFG), de Lidiane Pereira Coelho, intitulada “Identidade e memória no imbricamento histórico-literário de Eleanor Marx, filha de Karl”. Nesta dissertação objetivou-se, dentre outros alvos, analisar os possíveis motivos que levaram a personagem, deste romance de Maria José Silveira, ao suicídio. Para chegar a este ponto de análise, Coelho (2013) estabelece como caminho: desvelar o lugar social da obra e seus aspectos ideológicos na construção da personagem; esquadrinhar como se dão os processos identitários da personagem num contexto marcado pelo tradicionalismo e pela luta pelos ideais da classe operária; refletir sobre seu momento histórico e social e a representação do feminino nesse contexto e o imbricamento entre ficção e biografia.

 

Coelho (2013) entende que houve uma conjunção de fatores que “conduziram a personagem Eleanor ao suicídio” (p. 6), dentre eles, o contexto sociopolítico de desigualdades na Era Vitoriana e a existência desta mulher, “forte, culta, lutadora (...) sensível e carente de amor e afeto” (p.6), à frente de seu tempo, e que vivenciou o “distanciamento de amigos e dos familiares, a morte dos seus entes queridos, o esgotamento físico e emocional dos últimos meses, a insônia, a solidão” (COELHO, 2013, p.6). A decisão de Eleanor pelo suicídio é, no primeiro momento, tomada como surpresa, como sendo incoerente que uma mulher tida como brilhante, pudesse pôr fim à vida. Diante desta incoerência, buscou-se quais teriam sido as causas para seu suicídio.

 

Para Coelho (2013), o objetivo também de Maria José Silveira fora o de analisar o que teria levado Eleanor, tida como uma mulher brilhante, ao desespero total e suicídio. A personagem é descrita “como uma mulher, que luta contra os valores opressores da sociedade inglesa vitoriana, que se engaja em questões políticas e sociais, que participa e atua nos movimentos em favor dos direitos feministas e operários, que ama e sofre por amor” (COELHO, 2013, p.22). Eleanor, traçada como intelectual de vanguarda, não esteve imune a viver dissabores. A autora conclui que a escolha de Eleanor pelo suicídio se deu por “uma conjuntura de fatores que se acumularam e que reforçaram ainda mais a tristeza incontrolável que ela sentia e a vontade de colocar um fim no sofrimento” (COELHO, 2013, p.84).

 

Desta forma é reforçado o paradigma da causalidade para a explicação do fenômeno do suicídio. Neste esquema, faz sentido buscar, na vida-biográfica-ficcional, uma razão, uma lógica que, culturalmente, justifique tal decisão. Isto foi encontrado, fosse na traição do seu companheiro, na morte dos entes familiares, no cansaço, na insônia, na solidão ou no somatório destes fatores. Interessa-nos indagar: de que forma construiu-se a associação entre a saudade de seus pais e amigos, o descaminho de seu grupo socialista, o arrependimento por não ter escolhido seu primeiro amor, o esgotamento físico e emocional dos últimos meses de vida ao suicídio? Esta pergunta parece não precisar ser realizada, uma vez que é posicionada uma compreensão cultural, que diz que tais eventos: saudade, arrependimento, esgotamento decepção, seriam razoáveis, dentro de um caráter determinista, para se pôr fim à vida.

 

A pesquisa número dez apresenta o título: “Estigmas e estereótipos sobre as lesbianidades e suas influências nas narrativas de histórias de vida de lésbicas residentes em uma cidade do interior Paulista”. Trata-se de uma dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis (UNESP), na área de conhecimento Psicologia e Sociedade, de Lívia Gonsalves Toledo (2008). Nela é abordado o modo como estigmas e estereótipos a respeito das lesbianidades influenciam a vida de mulheres lésbicas na construção de suas subjetivações. Toledo (2008) entende que tais estigmas e estereótipos são sustentados pelo machismo, viriarcado (contexto em que se privilegia atributos vistos como essencialmente masculinos) e heterossexismo, que regulam a construção de identidades de gênero, sexuais e políticas. Neste contexto, a relação erótica entre mulheres seria invisibilizada, perpetuando discursos homofóbicos.

 

Toledo (2008) cita a história de um casal de lésbicas: Elisabeth Bishop e Maria Carlota Costellat Macedo Soares (Lota, quem construiu o Aterro do Flamengo), que terminara com o suicídio desta com a ingestão de remédios. Na contextualização realizada pela autora, o período de relacionamento deste casal era marcado por um Brasil que via a relação entre duas mulheres como aberração. No mais, esta dissertação não visa desenvolver a temática do suicídio, que entrou em cena apenas duas vezes: uma como parte de um processo de estigmatização das lesbianidades que resultam em violência (Toledo, 2018, p.28), outra como provável justificativa após a ruptura no relacionamento entre Bishop e Lota (Toledo, 2018, p. 74). Mais uma vez -se a reafirmação do suicídio como resposta à violência e/ou ao sofrimento.

 

A pesquisa número 11 é uma tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), para obtenção do título de Doutor em Psicologia Clínica de Adriana Nunan do Nascimento Silva (2007). Ela visou investigar a especificidade do preconceito sexual internalizado em correlação com “sintomas clínicos tais como depressão e suicídio, transtornos alimentares, abuso de álcool e drogas, comportamentos sexuais de risco, violência doméstica, e a busca por terapias de conversão da homossexualidade” (SILVA, 2007, p. 8). Para esta autora, conviver com uma identidade social estigmatizada explicaria, em parte, o elevado número de transtornos de ansiedade de LGBTS comparados aos heterossexuais. O mesmo ocorrendo para os planejamentos e tentativas de suicídio entre LGBTs com depressão grave, quando comparados a heterossexuais com o mesmo diagnóstico. Silva (2007) ainda localiza um vasto número de pesquisas[7], americanas, inglesas e australianas, que ratificam estas correlações, traçando inclusive uma estatística de 3,7 a 7 vezes mais chances de um homossexual tentar o suicídio do que um heterossexual.

Silva (2007) também apresenta outros fatores de risco ao suicídio, como:

O fato do adolescente assumir sua orientação sexual e ter experiências homossexuais durante a pré-adolescência, término de relacionamentos amorosos, dependência química, abuso sexual, assunção de papéis de gênero atípicos, problemas familiares e/ou sociais (incluindo fugir/ser expulso de casa, envolvimento com prostituição e criminalidade) e conflito pessoal com relação à própria homossexualidade (SILVA, 2007, p. 168).

A autora enquadra o suicídio na categoria de transtornos mentais na consideração final de sua tese.

 

Ressalta-se que as perguntas que compuseram seu roteiro de entrevista[8], afirmam a vivência de preconceito, discriminação e estigma pelo gay a ser entrevistado. Por exemplo: “Como foi se assumir (ganhos e perdas/problemas)?”, “O que você acha que estigmatiza os gays?”, “Influência do preconceito no relacionamento”. Tais questionamentos (quase retóricos), apesar de não indicarem quais elementos serão respondidos, anunciam a crença de que existam dificuldades por ser gay. Sendo assim, lhes é dado uma circunstância: a da necessária vivência da homofobia. De acordo com esta forma de análise, parece que gays seriam socializados na homofobia e que a internalização deste preconceito seguiria uma ordem “natural”. Isto reproduz um registro causal e ainda essencialista de compreensão do homem. Esquece-se do caráter de abertura de sentido, próprio do ser humano.

 

Não obtivemos acesso, em sua integralidade, à última pesquisa desta amostra. Isto porque foi realizada antes da Plataforma Sucupira. Entretanto, localizamos que se refere a uma dissertação em Ciências Sociais, produzida junto a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) por Deise Tavares Areias. A partir do resumo da mesma, percebemos ter sido a única pesquisa, da amostra, que parece não tratar o fenômeno do suicídio em vias de causa-efeito. Uma outra compreensibilidade possível foi examinada através da dimensão mítico-simbólica, como imagem poética a partir de Gaston Bachelard. Por meio da leitura das narrativas das suicidas (que fracassaram à tentativa de pôr fim à vida), a autora almejou mostrar a emergência da poeticidade humana na situação limite de finitude da vida.

 

A reflexão sobre a técnica

Heidegger (2012), um pensador do ser (em seu caráter ontológico), faz uma interpretação da facticidade do mundo através do elemento de análise técnica, como téchne grega. Ele realiza uma descrição hermenêutica da técnica do homem moderno, i.é, ele deixa aparecer o modo como o homem tem se relacionado com as coisas neste período histórico atual. Ao tematizar e descrever fenomenológica e hermeneuticamente este modo, ele nota que o homem tem se relacionado com as coisas reduzindo-as a uma única medida, causa ou circunstância, de forma acachapante. A este modo de desvelamento da realidade para o homem moderno, i.é, a este horizonte histórico de compreensão de mundo, Heidegger nomeou de “Era da Técnica”.

 

A problemática da essência da técnica moderna é justamente essa desmedida em remeter tudo a uma medida única ou determinada, correndo-se o risco de subtrair o caráter ontológico de indeterminação do ser do homem. Ou como diz Sá (2017, p. 64) em relação à técnica moderna, trata-se “de um horizonte histórico de desvelamento de sentido dos entes ao qual o homem moderno co-responde, tanto mais fascinado e impotente, quanto mais alimenta a ilusão de que o produz e controla”.

 

É tendo em vista essa compreensibilidade que a fenomenologia existencial percebe o que tem sido produzido (e trabalhado) sobre o suicídio, correlacionado à população LGBT. Não se trata de invalidar as produções acadêmicas encontradas, pois estamos inelutavelmente mergulhados neste projeto de produção de sentido. Mas, propor uma tematização deste acontecimento ou desvelamento de nossa conjuntura hermenêutica, para que nós, ainda como Sá (2017, p. 64) descreve, “possamos relativizar em alguma medida nossas identificações e ampliar nossa margem de livre correspondência a outras possibilidades históricas que se anunciem naquele horizonte”.

 

Como alternativa de atuação, a fenomenologia hermenêutica propõe, a partir da própria tematização deste horizonte histórico que co-pertencemos, uma reaproximação à téchne grega. Para esta, a técnica é um modo de desvelamento que “deixa vir à presença”, intermediada (téchne) ou não (physis) pelo homem, mas velando pela manifestação, sem provocar seu desvelamento (Sá, 2017).

 

Pensar o suicídio nestes termos é exercitar uma meditação sobre o quê este fenômeno quer revelar. Sendo que esta revelação não se dá via provocação (aproximando aqui ao conceito da técnica moderna) impositiva de saberes que já posicionam alguma obviedade acerca do acontecimento, i.é, uma revelação de sentido ou compreensão já embasada numa moral, cálculo estatístico de previsibilidade ou variáveis de controle. A revelação feita deste modo, tão afinado às ciências naturais, pode ocultar ainda mais o que o fenômeno do suicídio teria a revelar.

 

A meditação sobre a técnica poderia ser tomada como “um caminho, na era da técnica, para a meditação sobre o ser” (Sá, 2017, p. 68). Isto poderia liberar alternativas de atuação que não harmonizem com o registro da provocação de uma descoberta para um fim; mas na revelação própria do que se revela em sua verdade e deixa o ser ser. Esta via, a da meditação, Heidegger chama de serenidade, uma forma diferenciada de exercício de pensamento e atuação fenomenológico-existencial acerca do suicídio, que não é marcada pelo olhar calculante, mas pelo olhar que se abre à reflexão sobre o plano de estruturação ontológico do nosso tempo. Serenidade seria uma disposição que nos libertaria da “irresistível prepotência da técnica” (Heidegger, 2000, p.12).

 

Considerações finais

Por meio desta revisão de teses e dissertações, dedicada ao fenômeno do suicídio em correlação com a população LGBT, pôde-se acompanhar a forma como o mesmo tem sido hegemonicamente compreendido na literatura. Percebe-se que as pesquisas partem de um pensamento determinístico-causal, ao lado de uma estatística perfilada. Elas situam a compreensão do fenômeno a partir de uma decomposição da existência e sua tradutibilidade em fatores preditivos de risco e/ou de proteção, relativos a características de personalidade, modelo familiar, fatores culturais, ambientais, sociais e crenças religiosas. E também fundamentam nas discriminações e violências sofridas por esta população, neste caso a de pessoas LGBTs, a causa do alto índice estatístico de suicídio a ela relacionado. O risco disso é que, ao posicionar o caminho de pesquisa antecipadamente, necessariamente a partir de um formato, encobre-se o que poderia aparecer de outro modo. E mais, nesta direção aprisiona-se a pessoa LGBT numa determinação fatalista/essencialista para sua existência.

 

Uma pergunta, entretanto, não cala. Será? Será que este caminho, que tem levado estudos científicos a sedimentarem um posicionamento fincado na necessidade de explicação e erradicação, daquilo que é estabelecido como causa (seguindo o método de pesquisa com agentes transmissores de doença) se aplica à compreensão do ato de pôr fim à vida? A partir de uma perspectiva fenomenológica-existencial visa-se, aproximar do que se chama por suicídio, sem determinações a priori, pois entende-se que elas são sempre insuficientes frente à abertura de sentido do fenômeno.

 

Este artigo procurou demonstrar a compreensão que tem prevalecido, na academia, acerca do fenômeno do suicídio em correlação com população LGBT, para apresentá-la em outros termos. O propósito não é negar a conhecimento hegemônico, mas, a partir da atitude fenomenológica, inaugurar um outro modo de compreendê-lo. Isto porque entendemos que subsiste um traço essencialista na forma como majoritariamente as pesquisas tomam esta correlação. Retirando do ser humano sua condição ontológica de indeterminação, e em seu lugar inserindo uma lida entificada sob seu modo de ser.

 

Este estudo, portanto, não visou apresentar um modelo de atuação para ser replicado frente à temática do suicídio, isto representaria um desafino à atmosfera que queremos propor, e reproduziria o caráter técnico-cientificista da Era Moderna, em sua lida com a realidade. A busca pela objetividade científica - tomada neste tempo como elemento organizador de mundo e representante do conhecimento-, oculta a possibilidade de ver no próprio fazer ciência, um fazer já pré-determinado e circunstanciado pelo horizonte de compreensão da Era Moderna.

Seria necessário, então, um desapego à imposição tecnicista, para (re) tomar o fenômeno do suicídio a partir do que ele fala de si mesmo em sua mostração, ou seja, do que aparece, sem necessariamente ter de corresponder a nenhuma equação de determinantes sócio-históricos. Nesta ausência de predestinação, sobretudo na tematização de questões relacionadas à vida (ao morrer e ao viver), é que possibilidades de tessituras de sentido singulares poderão ganhar passagem e se manifestarem.

 

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Curriculum
Psicóloga graduada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Especialista em Psicologia Jurídica, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). 

Mestra em Saúde Coletiva, no Programa de Medicina Social, pela UERJ.
Formação para atuação clínica em situações de suicídio na perspectiva Fenomenológico-Existencial, no Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro (IFEN).

Doutoranda em Psicologia Social, UERJ.

 

Correo de contacto: refazer23@gmail.com

 

Fecha de entrega: 13/01/2020

Fecha de aprobación: 25/02/2020


 

 



[1] Disponível em: <https://www.who.int/publications-detail/live-life-preventing-suicide>, em 02/01/2020.

[2] A sigla LGBT será usada, neste texto, para englobar extensivamente a não heterossexualidade e a não cisgeneridade.

[3] Localizado em <https://www.cartacapital.com.br/blogs/suicidio-da-populacao-lgbt-precisamos-falar-e-escutar/>; acessado em 02/01/2020.

[4] Títulos das pesquisas excluídas: “Adaptação transcultural e validação da Escala de Depressão Geriátrica GDS-15” e “Caracterização de pacientes portadores de Transtorno de Identidade de Gênero”.

[5] Cisgênero é utilizado para caracterizar indivíduo que se reconhece/identifica como feminino ou masculino a partir dos órgãos sexuais de nascença.

[6] Queer foi uma palavra usada de forma pejorativa para referir-se a homossexuais. Atualmente, entretanto, tem sido utilizada por acadêmicos e ativistas para referir-se a qualquer pessoa cuja sexualidade e identidade de gênero não esteja adequada à matriz heterossexual ou binária de gênero (feminino/masculino).

[7] Gilman e cols. (2001); Remafedi e cols. (1998); Buhrich e Loke (1988); Herrell e cols. (1999); Cochran e Mays (2000); McDaniel e cols. (2001); Nicholas & Howard (1998); Paul e cols. (2002);

[8] O roteiro completo pode ser encontrado nos anexos da tese de Silva (2007).

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