Revista Latinoamericana de Psicoterapia Existencial. UN ENFOQUE COMPRENSIVO DEL SER.  Año 13 - Nº 26 - Abril 2023

 

Vulnerabilidade Humana e conflitos sociais: suas fontes

 

Emilio Romero
Joinville, Brasil

 

O homem é a mais frágil de todas as criaturas, apenas um caniço,

mas um caniço pensante (Blaise Pascal, Art.6,347)

 

Faça um balanço de algumas formas de medo e de covardia que até hoje você já experimentou. Verá que não são poucas; algumas você atenua e dissimula; outras o dominam até a angústia e o desespero. (Max Nolden, 2009).

 

 

 


O ser humano é um ser vulnerável: mostra-se deficiente, sem defesa e aflito assim que se percebe sem recursos suficientes para enfrentar as dificuldades e obstáculos que impedem suas vias de trânsito ou se algum fator ameaça sua segurança. Nem sempre toma consciência de suas deficiências, chegando a exibir uma notória arrogância por seu suposto poder e por seus períodos de bonança. Isto sucede tanto nos indivíduos como nos grupos. Em períodos de prosperidade e conquistas as pessoas gostam de dar a impressão de que estão por cima das contingências negativas que os cercam, mas em épocas menos favoráveis percebem claramente que não basta uma boa dose de otimismo para neutralizar as ameaças que os acossam e angustiam.

As ameaças ao ser humano se têm multiplicado em todos os planos estas últimas décadas. Numa cartada política, alguns observadores chegaram a dizer que o fato de existir apenas um pólo de dominação mundial, sem a contraposição que implicava a existência da União Soviética, o mundo entraria numa etapa de maior tranquilidade. Nada disso aconteceu, pelo contrário surgiram problemas piores ainda. O campo de forças opostas é essencial para o movimento na direção de mudanças conforme a interesses diferentes e diversificados. Hoje estas forças opostas existem, mas dentro de um mesmo paradigma, ou dentro de variantes do mesmo paradigma, que é a chamada “economia empresarial e financeira”, ou Capitalismo.

Acabavam assim setenta anos de Guerra Fria entre duas superpotências.

Estes últimos vinte anos se impôs a ideia da Globalização da economia capitalista, que ficava sem oposição de um sistema socioeconômico diferente, como acontecia até então. Este fato teve graves consequências para a composição de forças sociais em todos os setores, mas especialmente para a classe assalariada, que ficou sem uma referência de apoio. As conquistas sociais desta classe logo foram reduzidas na maioria dos países, que sob a ameaça do desemprego terminam por baixar a cabeça. Os sindicatos perderam seu poder de barganha, de pressão e de mobilização, que são as manifestações

 

 

de um poder vigente. A partir de então as regras do jogo seriam impostas apenas por

Washington para o resto do mundo. Em aparência só havia agora um único poder hegemônico. Inclusive China reconhecia já que era preciso introduzir algumas formas de economia de mercado se queria acelerar seu desenvolvimento material. Em 1990 não era uma ameaça séria para USA; não ameaçava sua hegemonia. Contudo, as coisas não eram tão simples.

Havia surgido outra frente de competição material e cultural, e de guerra não declarada. China cresce no plano econômico em porcentagens entre 7 a 10 % por ano, o que os países capitalistas de Ocidente não conseguem. NO 2001 o extremismo islâmico estoura as duas Torres em Nova York, numa ação muito bem planejada e terrível. USA se empenha em outras frentes de guerra. Bush ordena atacar Irak, que pretendia impor seu Poder no mundo muçulmano. Irak é desmantelado. Arrassado.

Desde 2008 estoura nestes países um período de recessão relativa e de convulsões que em diferentes pontos do planeta.

Era preciso acabar com esse foco de resistência, foco que apelava a meios desesperados para minar de alguma forma o poder de um inimigo forte. A queda das Torres gêmeas desatou uma nova guerra no Oriente médio. Era o começo de uma terrível crise do mundo capitalista, cujas manifestações mais sombrias se deixam sentir especialmente nos chamados países ricos, mas que afeta também aos países pobres. Apenas para dar um exemplo: em esses países se duplicou o desemprego estes últimos doze meses, chegando a uma meia de 10% na Europa. Economias aparentemente em plena prosperidade, como a espanhola, se desmoronaram.

Este é um aspecto básico para situar-nos no devido contexto, mas é só um aspecto, há outros igualmente muito importantes, todos relacionados com a vulnerabilidade humana. 

A vulnerabilidade se manifesta em todos os planos e emana de diversas fontes que condicionam a existência. Farei um breve sumário destas fontes.

 

 

# Na esfera biológica o homem está sujeito a todo tipo de doenças, muitas delas ainda incuráveis; o que é, pior não param de aparecer doenças não detectadas ou simplesmente não existentes até então, como acontece com a Aids. Há mais de 50 milhões de indivíduos aidéticos e cada dia aumentam alguns milhares, especialmente em países pobres, como Índia e as nações africanas. Com o aumento da longevidade nos países prósperos e nos em desenvolvimento, os problemas sociais se agravam, pois, os velhos não têm empregos e tampouco tem atendimento médico em razão que a medicina se privatizou, o que permite o atendimento só a uma fração de indivíduos que podem pagar tais serviços.

Só para dar um panorama das doenças que apresentam o mais alto índice de prevalência cito o estudo da Dra, Marilisa Berti de Azevedo Barros (2003):

 

Entre as 12 doenças pesquisadas, considerando todas as faixas etárias, as mais prevalentes foram: doença de coluna, hipertensão, artrite, depressão, asma e doenças do coração.

Com exceção de tuberculose e cirrose, todas as demais são mais prevalentes entre as mulheres, sendo as maiores diferenças em relação aos homens observadas na prevalência de- depressão (RP = 2,76), -artrite (RP = 2,07), tendinite/sinovite (RP = 2,18) -e cirrose (RP = 0,31). O padrão por idade e sexo diferencia-se com o tipo de problema de saúde considerado. As prevalências, em geral, crescem com a idade para a maior parte das doenças, incluindo artrite/reumatismo, doenças do coração, hipertensão, diabetes, doenças de coluna, insuficiência renal e câncer. A asma apresenta prevalência elevada em crianças, decresce até a faixa que vai dos 30 aos 50 anos e volta a aumentar a partir desta idade.

A análise do perfil de doenças dos adultos (18 anos e mais), segundo o nível de escolaridade revela que, com exceção de tendinite/sinovite, todas as demais doenças pesquisadas apresentaram maior frequência nos segmentos de menor escolaridade. As maiores disparidades sociais na ocorrência de morbidade – avaliadas pelo nível de escolaridade – foram observadas nas prevalências ajustadas de doenças do coração (RP = 3,29), artrite ou reumatismo (RP = 3,22), diabetes (RP = 3,23), insuficiência renal crônica (RP = 2,94) e hipertensão (RP = 2,90).

 

Por outro lado, o aumento descontrolado da população humana está gerando problemas que hoje parecem sem solução. O mais incrível é que nenhum Organismo Internacional denuncia este problema como um dos maiores que se registra na história do homem. Só a China, com sua sabedoria milenar, tem sabido aplicar medidas drásticas para deter este fenômeno; se não houvesse aplicado medidas draconianas seguiria os passos da Índia, submersa na mais abjeta miséria. Nenhum político tem a coragem de apontar o aumento planetário da espécie humana como um problema muito grave, sobretudo para as nações pobres, que nos países mais prósperos não existe este problema. Porém, bastaria uma campanha mediática e uma educação dirigida para diminuir a população numa geração, deixando-a em relação com os recursos materiais básicos. Inclusive alguns políticos do terceiro e quarto mundo, onde este mal é mais agudo, chegam à aberração de celebrar cada vez que constatam o aumento de seus habitantes.

Este problema ainda apresenta outro agravante: a população tende a concentrar-se cada vez mais nas cidades, o que gera novas fontes de conflitos, sobretudo nas grandes urbes, como Rio, São Paulo, Cidade de México.  A violência urbana, a aglomeração em favelas e tugúrios, a proliferação da delinquência, as dificuldades no trânsito, são alguns dos problemas decorrentes da concentração excessiva em áreas urbanas.

E há ainda um outro problema enorme: o aumento da longevidade, que prolonga a velhice e gera novas aflições na previdência social (aposentadoria) e nos atendimentos médicos.

 

# No plano psicológico e social se registram um aumento notável de perturbações associadas à ansiedade, à depressão, ao estresse, com seus reflexos em todos os sistemas orgânicos, como acontece com as doenças cardiorrespiratórias, imunológicas e psicossomáticas.

Contudo, os problemas psicológicos afetam a pessoa como um todo. Devido à primazia dos interesses puramente materiais dominantes no Sistema Social (SS) as pessoas se têm ido gradualmente transformando apenas em consumidores ou em agente produtores de coisas e mercancias, todo direcionado para o aumento dos lucros, e nos casos dos pobres para a simples sobrevivência.  Os indivíduos perdem os atributos essenciais à noção de pessoa: ser considerados como um fim em si mesmo e não como simples meios, ser considerados por suas qualificações intrínsecas e não apenas por sua posição socioeconômica.

É certo que esta noção é mais ideal do que real, havendo predominado a ideia de pessoa sobretudo como imagem social. Pior ainda: os direitos humanos básicos, aprovados pelas Nações Unidas, se tornam uma mera cartilha de intenções, mero cartaz na estrada. As pessoas se têm transformado em parafusos da gigantesca máquina produtiva, o que afeta inclusive aos que ocupam posições privilegiadas dentro do Sistema. Sem uma escala de valores e de crenças consistentes, salvo essas crenças oriundas de uma tradição já obsoleta, que sustentem a existência, apenas estimulados para a aquisição de bens de consumo e de divertimentos alienantes, a grande massa da população vive seu cotidiano na mera luta pela sobrevivência.

Certamente este fenômeno de despersonalização é de longa data, tanto assim que já foi denunciado em diversas épocas por alguns escritores notáveis. Lembremos que Franz Kafka descreveu o mundo das pessoas dos Anos Vinte, mostrando os diversos cenários sombrios em que se movem os indivíduos em esse tempo. Em nosso Continente, nos anos 30, um Roberto Arlt também nos mostrou o clima em que se debatiam seus personagens nas suas tentativas de sobrevivência. A diferença de Kafka, os personagens de Artl são combativos, tentam resistir com todas as armas a seu alcance, mesmo que para isso precisem infringir todas as normas.  Dois tipos de mundos diferentes, mas os dois tentando de alguma maneira resgatar a individualidade dentro de um sistema que se nega a reconhecê-la.

Na época atual, que alguns chamam de pós-moderna, outros de tecnológica-computacional, impõe-se uma nova forma de personalização; como escreve Lipovetsky, neste tipo de sociedade “em que reina a indiferença da massa, em que domina o sentimento de saciedad e de estagnação, em que a autonomia privada é óbvia, em que o novo é acolhido do mesmo modo que o antigo, em que a inovação se banalizou, em que o futuro deixou de ser assimilado a um progresso inelutável. ”

Existe um clima de insegurança em todos os planos, derivados em grande parte de fatores socioeconômicos e políticos. É preciso sublinhar estas origens. Em especial, a área econômica gera no campo social e individual tensões e angústias que minam a defesas psicológicas das pessoas e enfraquecem sua capacidade adaptativa.  Na esfera social aumentam os conflitos socioeconômicos, de maneira tal que dois terços da humanidade vivem na pobreza y um terço simplesmente na mais triste miséria. A miséria gera guetos que se tornam centros de delinquência organizada dedicados ao tráfico de drogas y de outras pragas sociais, como a prostituição, a mendicância, a falta de orientação moral, entre outras. A falta de orientação adequada nestes guetos e em outros setores da população é um problema que tampouco se examina em todas suas dimensões.

Ainda mais, as guerras entre nações não param; pelo contrário adquirem novas formas. No afã de domínio mundial surge como prática corriqueira as guerras de ocupação como estão fazendo os norte-americanos e europeus nos países árabes, que sob pretexto de neutralizar a ação de extremistas invadem esses territórios; ou simplesmente estes países fortes fomentam o armamentismo nos países pobres como acontece na África, Ásia e América Latina. Os EE.UU e outros países gastam bilhões de dólares em fabricação de armas, destinadas ao comércio e a seu uso em campanhas bélicas permanentes. Esse dinheiro investido em armas de destruição daria para acabar com a fome dos dois terços da humanidade. Até hoje nenhum alto hierarca dos países ricos tem feito esta proposta no seio das Nações Unidas.

Como consequência de uma economia centralizada na produção massiva e na prioridade dos lucros para as grandes empresas se descuidou o ambiente físico natural, o que terminou por gerar alterações climáticas catastróficas que estão pondo em sério perigo a vastos setores da população na maioria dos países. O famoso acordo de Kioto com respeito ao cuidado básico do meio ambiente não foi assinado pelos países que mais poluem o planeta, isto é, os mais industrializados –EE UU e China.

 

#  A Globalização, que foi publicitada como um grande passo para a unidade mundial, se tem mostrado sem nenhum efeito positivo, salvo na área dos grandes negócios que beneficiam a uma minoria. Tanto é assim que os países capitalistas que dominam o mundo entraram numa crise financeira sem precedentes, levando à beira do colapso a todo o sistema da chamada economia de livre exploração e de iniciativa privada.

Foi necessário a intervenção do Estado para evitar o colapso de empresas famosas por seu tamanho e sua penetração no mercado mundial –como é a fabricação de carros e Bancos internacionais. O Estado desses países precisou injetar bilhões de dólares para salvar essas empresas, salvá-las com o dinheiro dos contribuintes, o que é um escândalo moral da pior espécie. Ninguém sabe até quando vai durar esta crise da economia capitalista. O único que se sabe é que o desemprego nos chamados países ricos alcançou índices assustadores e os medos do desamparo implicado na falta de uma renda fixa gera mais perturbações psicológicas e convulsões sociais.

 

# O clima humano predominante especialmente nas megalópoles. Os FilósofosComo síntese do dito, submetida às condições e limitações apontadas, a existência da imensa maioria da população está ficando cada vez mais angustiante, mais desprotegida, mais vulnerável a todos os males indicados acima. É verdade que o Estado e as elites usam todos seus recursos de controle e direcionamento da consciência coletiva para persuadir a população que o sismo que afeta o sistema é algo passageiro, que logo as coisas voltarão a seus eixos e uma nova era da prosperidade tornará a florescer. Este é um simples truque para reforçar o conformismo Um dos papeis dos MICs (meios de informação coletiva) é condicionar a mente coletiva para que as pessoas aceitem os vícios e as injustiças do modelo econômico dominante. Contudo, vozes cada vez menos conformistas estão começando a dar sinais de que já não aceitam bovinamente os rumos cada vez mais abusivos do modelo da economia técnico-consumista-empresarial.

Indiquei as fontes mais notáveis da vulnerabilidade humana e algumas de suas manifestações em alguns planos da realidade. Faltou ainda referir as origens existenciais desta fragilidade. Em diversas épocas alguns pensadores sublinharam algumas características ontológicas da existência que permitem compreender as raízes profundas desta forma de desamparo humano. Citei acima a celebre frase de Pascal. Em seus “Pensamentos” há numerosos aforismos em que nos lembram as misérias humanas, mas apontam igualmente suas grandezas, pois o homem é uma unidade de contrários, oscilando tanto para o bem como para o mal. Ele não é o único. Os maiores pensadores e escritores de nosso tempo já destacaram a intrínseca indigência de nossa condição. NO âmbito da filosofia são bem conhecidas algumas teses de Nietzsche, de Heidegger e de Sartre, de Marx.

 

# Nietzsche destacou o subdesenvolvimento geral da espécie humana; afirma que o homem   conserva os traços simiescos de suas origens; seria só uma ponte entre o macaco e uma espécie de ser a caminho de um futuro mal determinado, o homem superior. Só alguns homens audaciosos, afirmativos e voluntariosos superam à grande massa humana chegando a formar a elite governante, legisladora e dominante.  Somos uma espécie de mera transição, que sobrevive graças a seus instintos básicos de animal de rapina, predador, supersticioso, astuto mais que inteligente, profundamente egoísta e sem senso maior de solidariedade, oscilando entre a vontade de dominar a seu próximo e seus artifícios para atenuar sua servidão perante os mais fortes. Por sua astúcia poder fazer de sua fragilidade e de seus medos uma ferramenta de poder, fingindo-se humilde e compassivo, embora esteja cheio de rancor. Inclusive faz de seus medos (“é o covarde demônio que há em ti que te diz há um deus”) uma promessa de compensação divina, embora essa compensação seja puramente imaginária, uma forma de engano estimulada pela ignorância, e pelos setores dominantes para tranqüilizar aos dominados. 

Nietzsche não fazia concessões às ideais e crenças mantidas por uma longa tradição. Foi ainda mais longe: percebeu que no séc. XX entraríamos na era do niilismo, num período onde os valores tradicionais perderiam sua vigência e inclusive a religião diminuiria sua influência na coletividade limitando-se a um papel meramente ritual e de estímulo à alienação do povo; a noção do sagrado desapareceria ou ficaria como uma idéia vaga. Esse parece ser o sentido da frase pronunciada por Zaratusta: Deus está morto. 

 

# Desde uma perspectiva muito diferente a colocada ´por Nietsche, Marx analisou o movimento da história nas Sociedades Complexas, especialmente na época do Capitalismo tal como se foi mostrando a partir dos Tempos Modernos. Entendeu que o movimento e a dinâmica da história obedecem e segue uma pauta sujeita a processos econômicos que geram duas classes em contraposição; uma classe de donos de capital e dos meios de produção em oposição com uma classe assalariada submetida ao Poder da classe dominante. Sua tese central é que esta relação pode ser superada se os assalariados se organizam e enfrentam numa luta incessante a seus opressores. A luta é inevitável. 

 

#  Heidegger usa uma linguagem mais suave, mas não por isso deixa de destacar alguns traços do ente humano que estão presentes durante a vida toda. Mostra que a característica ontológica do ente humano é sua existência: é o ser que está-aí, jogado no mundo, em total desamparo e indigência, sempre atento a preocupação e ao cuidado de si sem que impliquem anulação de seu desamparo, embora determinadas formas de cuidado funcionem, na prática, como atenuantes ou afastamento temporário do desamparo. No plano óntico, isto é, na vida comum vivida, todas as formas de cuidado visam afastar a indigência originária, criando um modo de vida mais seguro, menos exposto aos riscos enfrentados a diário. No entanto, nenhuma medida afasta a ameaça do nada que nos espreita deixando a existência na possibilidade de seu fim em qualquer momento. Somos seres temporais o que implica que vivemos na finitude e na transitoriedade. 

 

# Os postulados da filosofia sartreana apontam na mesma direção dos enfatizado por Heidegger, apenas acentuando ainda mais outras características existenciais. Vou destacar só quatro teses básicas que sublinham quatro peculiaridades do ser humano.

A primeira é a insuperável oscilação da existência entre o ser o nada, jogando o nada o papel mais eminente.  A segunda, a existência é basicamente carência; de que carece o homem? É carência do ser: o homem não é, apenas se define por uma perpetua tentativa para ser algo. A terceira, não há nada que justifique a existência, não possui nenhum fundamento metafísico, é um ente puramente contingente, isto é, não é necessário, é gratuito. O homem é inteiramente livre, nada o determina em sua existência, embora sempre alega alguma causa determinante para justificar algumas decisões e comportamentos, tenta deste modo justificar-se ou atenuar sua responsabilidade em suas escolhas erradas. Liberdade e responsabilidade vão juntas. Se o homem não fosse livre não seria responsável.

Como se pode apreciar, na concepção destes filósofos a vulnerabilidade do homem tem origens profundas, que se enraíza em sua própria estrutura essencial. Contudo, estes mesmo pensadores não ignoram os aspectos positivos que permitem superar a negatividade ontológica, permitindo-lhe criar as condições de sua existência e seguir linhas de desenvolvimento que em alguma medida ora atenuam sua carência originaria, ora o levam aos piores extravios.

É verdade que todos eles indicam que as deficiências e limitações inerentes à existência são em parte compensadas por alguns poderes que permitem tanto sua sobrevivência quanto o domínio sobre a natureza, seja a que está fora, em seu ambiente, como a que forma parte do próprio ser humano. Pascal seguindo as pegadas do pensamento grego aristotélico indicou a capacidade pensante, mas sem conceder todos os pontos à razão pois também advertiu “que o coração tem suas razões que a razão não compreende”.

Nietzsche colocou na auto-afirmação e a confirmação de si como expressão de uma vontade forte e no próprio egoísmo humano as ferramentas para alcançar um patamar de desenvolvimento criativo mais alto que a mediania em que permanece a imensa maioria dos mortais.

Heidegger não parece achar saída para superar a condição originaria do Dasein; aponta de maneira muito ambígua um possível encontro com o ser através e na entrega a Ereignis, palavra alemã de significado difícil de traduzir em termos equivalentes em português. Seria algo assim como a entrega ao mero acontecer no fluir do tempo, numa contemplação em que o Dasein e o Ser se confundem. Seria a volta ao ser, sem que ele indique alguma via para alcançar este propósito, menos ainda num sentido coletivo. Sugere a atitude contemplativa do Budismo tradicional. Nem preciso dizer que semelhante proposta não tem sentido nos marcos da cultura ocidental, orientada desde séculos pela ideia de domínio da natureza e a instrumentação maquinística do homem pelo homem, menos em nosso tempo tecnológico e eletrônico, em que as pessoas se tornam simples mercancia no sistema econômico dominante.

A alternativa de Sartre é diferente das anteriores, especialmente quando se abre à proposta fundada por Marx, sem que a aceitação das grandes teses do socialismo doutrinário seja subscrita por ele da maneira como Marx as formula. Mediante a ação mancomunada, dirigida e organizada pela classe trabalhadora será possível a liberação do homem e o fim da opressão que um setor poderoso exerce sobre o outro carente de poder. Isso não significa que os quatro postulados ontológicos comentados acima percam sua validade; não, as novas relações humanas geradas pelo socialismo justo e libertário permitirão sua aceitação como algo natural, não como uma simples condena. O fundamental é que os poderes não estejam concentrados numa elite, mas esparzidos de um modo paritário em todas as instituições e sobretudo nos indivíduos.

Para superar os graves conflitos econômicos e sociais que tornam ainda mais vulnerável a situação dos indivíduos e do conjunto humano é necessário que alguns fatores que regulam e direcionam o SS dominantes sejam mudados. Não é preciso eliminar o sistema capitalista no atual momento da história, mas seus aspectos mais aberrantes devem ser eliminados ou reduzidos a sua mínima expressão. Vou citar apenas quatro fatores presentes neste sistema, sobre os quais sempre se discute quando se destacam as fontes dos males sociais e das fontes do sofrimento humano.

 

a) Um dos fatores que deve ser alterado, sobretudo nos países em desenvolvimento é a desigual distribuição da riqueza, que fica num 70% em poder de setor minoritário (em torno do 8 ao 15% da população, incluída parte da classe média próspera).

 

b) Outro fator é que a democracia deixe de ser um mero palavrório eleitoreiro para que se efetiva graças ao controle dos representantes por parte dos representados no poder legislativo e executivo; para tanto é preciso que senadores e deputados tenham um poder limitado, sem nenhuma imunidade parlamentar, podendo ser exonerados pelos próprios eleitores que os escolheram. Isso significa uma mudança radical nesta área do poder.

 

c) Um fator importante é que a educação básica da população leve à concientização e ao espírito crítico, deixando de ser uma mera acumulação memorística de informações diversas. A educação básica, aliás, deve ser um serviço prioritário do Estado, com mínima participação da escola privada, em cujas mãos vira simples negócio.

 

d) O quarto fator a ser mudado é o papel da mídia. É um dos meios  mais influentes na formação da opinião pública e na modelagem da consciência coletiva; por desgraça, a mídia  está ao serviço de interesses setoriais que visam a manutenção dos poderes dominantes e o aumento desses poderes, mostrando escasso ou nenhum interesse na educação e na construção libertária do espírito de uma nação; está ao serviço dos poderes dominantes, embora costume usar  uma linguagem populista só para facilitar seu labor de lavagem cerebral da grande massa humana.

 

Obras recomendáveis

Arlt, R. (1982): Os sete loucos. Fracisco Alves.

Berti de Azevedo Barros, M. e col. (2003): Desigualdades sociais na prevalência de doenças crônicas no Brasil PNAD-2003.

Heidegger, M. (1990). Ser e tempo. Vozes.

Lipovetsky, G. (1983): A era do vazio. Lisboa, Portugal: Antropos.

Kafka, F.: Todas suas obras, em especial “O processo” e  “O Castelo”.

Pascal, B. (1973): Pensamentos. Victor Civita.

Nietzsche, F. (2007): Assim falou Zaratustra. Claret.

Nolden, M. (2009) Aparências e disfarces da Realidade

Sartre, J. P. (1939) A Náusea.

Sartre, Jean Paul (1943) El ser y la nada. Bs. Aires, Argentina: Losada.

Sartre, J. P. (2005). Critica de la razón dialéctica. Bs. Aires, Argentina: Losada.

 

Curriculum
Psicólogo clínico. Ex docente de varias universidades en Brasil. Miembro fundador y de honor de ALPE. Escribió numerosos libros científicos y literarios.

 

Correo de contacto:

emiliorom@terra.com.br

Fecha de entrega: 11/02/2023

 

Fecha de aceptación: 28/02/2023