Revista
Latinoamericana de Psicoterapia Existencial. UN ENFOQUE COMPRENSIVO DEL
SER. Año 16 - Nº 32 – Abril
2026
Sección Aportes Originales
Atitude fenomenológica e a clínica psicológica em situações
de ansiedade
Phenomelogical attitude and the
psychological clinic in anxiety situations
António
Austério
Ana
Maria Lopez Calvo de Feijoo
Universidade
Estatal de Río de Janeiro, Ifen
Resumo
Neste trabalho, nos propomos
investigar as contribuições da fenomenologia-hermenêutica para uma compreensão
mais ampla sobre a experiência de ansiedade. Para tanto, utilizamos os três
momentos da investigação fenomenológica-hermenêutica; destruição, por meio de
uma atitude fenomenológica, questionamos as verdades postas sobre a ansiedade
pelos modelos descritivos e explicativos; por fim, discutimos a construção em
que se visa compreender hermeneuticamente o comportamento do homem na
atualidade, que se mostra por meio da ansiedade como um modo de expressão da
angústia. Por esse caminho, alcançamos a experiência da ansiedade como
possível expressão do ser em um mundo que requer pressa, controle e produção
incessante. Com esse modo de compreensão da experiência da ansiedade, apontamos
para uma postura psicoterapêutica que, ressaltando a existência, ganha outros
contornos para além da explicação e do tratamento da ansiedade como algo da
ordem biofísica e química.
Palavras-chave
Transtorno de Ansiedade. Angústia. Fenomenologia-hermenêutica.
Impessoalidade. Singularidade.
Abstract
In this work, we propose investigating the contributions of
phenomenology-hermeneutics for a broader understanding of the experience of
anxiety. For this reason, we use the three moments of phenomenological-hermeneutic
research: reconstruction through a literature review; destruction, by means of
a phenomenological attitude, we question the real truths about anxiety
descriptive and explanatory models. Finally, we discuss the construction in
which it is
intended to hermeneutically
understand the behavior of men in today's world, which is shown through anxiety
as a mode of expression
of anguish. Through this path, we reach
the experience of anxiety as a possible expression of being in a world that
requires pressure, control and incessant production. With this way of
understanding the experience of anxiety, we aim for a psychotherapeutic position
that, highlights its existence, gains other contours to further explain and
treat anxiety as something of the biophysical and chemical order.
Keywords
Anxiety Disorder. Distress. Phenomenology -hermeneutics. Impersonality.
Singularity.
Introdução
Tendo-se a ansiedade como roupa apertada,
desconfortável, mas como vestimenta usual desse estado que afeta o homem na
sociedade contemporânea, antes classificada pela Organização Mundial da Saúde
como transtorno mental comum e tratada, muitas vezes, apenas pelos sinais e
sintomas ou por entendimentos causalistas e explicativos, este trabalho
propõe-se a investigar as contribuições da fenomenologia-hermenêutica na
compreensão da ansiedade por meio da disposição afetiva da angústia.
A ansiedade, como crise existencial, é
interpretada pelas ciências naturais em um diagnóstico inerente ao corpo
biológico. Colocamos em questão essa interpretação hegemônica, posto que tal
fenômeno pode ser compreendido por outras vias, como, por exemplo, pela
hermenêutica da existência, posto que esse ser que se mostra ao modo do ente
constitui-se como ser-no-mundo em um horizonte histórico-temporalmente constituído.
Nas palavras de Pinto (2017), a ansiedade
marca nossa época e se mistura à vida cotidiana e à cultura por meio da
revolução tecnológica, do aumento no fluxo de informações, da pressa, da rotina
acelerada de um mundo que se esqueceu da possibilidade de contemplação.
Vivemos em uma sociedade marcada pela valorização da produtividade em que
todos os dias aparecem mais e mais influenciadores sociais dizendo-nos o que e
o como fazer na vida, tornando-se mestres de desavisados, aplaudindo a
estagnação da curiosidade intelectual, desviando os propósitos da procura mais
singular, ofertando conclusões apressadas, esvaziando ainda mais o pouco
autoconhecimento disponível, dispersando o pseudoconhecimento multitudinário,
levando o indivíduo, como diz a linguagem popular, a um copia e cola.
A vida, pois, enquanto movimento, compõe-se
de experiências que produzirão sempre o novo em um encantamento pela novidade.
Na medida em que nos fascina, também nos amedronta. Trata-se daquilo que Kierkegaard
(1843/2010) denomina angústia, e exemplifica esse afetar-se como um menino que,
vendo um filme de terror, abre um olho e fecha o outro. Arriscamos dizer que,
no afã de tudo querer, antecipar e controlar, as possibilidades que se abrem
pela tonalidade da angústia podem ser experimentadas como ansiedade. Ansiedade
diz respeito a se colocar na expectativa dos acontecimentos e, quando vivida de
forma exacerbada, pode se mostrar como restrição. A possibilidade do novo
torna-se ameaçadora e a ansiedade manifesta-se como resistência ao
acontecimento do inesperado. Se por um lado a ansiedade lança o homem ao
enfrentar e arriscar, possibilitando transmutar diante de uma nova experiência,
por outro, pode levá-lo a se retrair e se inibir frente ao contato com o meio
que demanda. E, assim, a excitação a ser direcionada para enfrentar o conflito
muitas vezes é inibida, passando a se manifestar no corpo em forma de sintoma
(Belmino, 2020).
Pela prevalência e decorrente relevância, o
tema ansiedade está sempre em pesquisa e discussão e, nesse sentido, citamos
como exemplo um resumo científico de março de 2022, constatando um aumento
mundial, em 2020, de 25.6% de casos de transtornos de ansiedade, acometendo
mais mulheres do que homens, assim como jovens, principalmente entre 20 e 24
anos, resultante dos altos estados de estresse causado pelo isolamento social e
outros fatores relacionados à pandemia (World Health Organization, 2022). Ainda
para a OMS, o Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de
ansiedade no mundo. Tais dados mostram que os transtornos ansiosos têm uma
demanda clínica crescente e uma alta prioridade para a psicoterapia. Assim,
busquemos maior compreensão além dos limites do pensamento dominante que
incorpora entendimentos puramente causalistas e explicativos, enfatizando a
observação da sintomatologia da ansiedade, utilizando, majoritariamente,
instrumentos de avaliação na identificação da prevalência dos sintomas, na
predominância do viés biomédico, preconizando a cura e a eliminação dos
sintomas (Faria, 2017).
Tais eventualidades nos suscitam a seguinte
pergunta: de que maneira o trato clínico, à luz da atitude fenomenológica e da
disposição da angústia, pode compreender a experiência da ansiedade? Seguindo o
objetivo deste estudo, que é demonstrar as contribuições da atitude
fenomenológica e a consideração da disposição da angústia para a compreensão da
ansiedade, vamos, primeiramente, caracterizar a ansiedade normativa decorrente
da interpretação científico natural para, depois, apreciar a atitude
fenomenológica como reflexão sobre o fenômeno e, nesse caminho, descrever a
ansiedade em uma perspectiva existencial como possível decorrência das
experiências da angústia. A partir de então, vamos refletir sobre a possível
contribuição desse modo de compreender o fenômeno para a psicologia clínica.
Temos como hipóteses: 1. que o indivíduo -
atravessado pelos muitos convites, pelo excesso de chamados a responder - cria
expectativas de situações das quais ele não tem controle; 2. que essa apreensão
frente às expectativas se expresse por meio dos sintomas da ansiedade ao ser
diagnosticada a partir de sinais e sintomas, por uma explicação causal,
reduzida ao orgânico, obscurecendo uma compreensão pela via da experiência e do
sentido que diga respeito à possibilidade de controle e antecipação das coisas.
Acredita-se, ainda, que, a atitude que o psicoterapeuta vai assumir decorre do
entendimento que ele tem sobre o fenômeno da ansiedade. Sem imposição de
saberes nem julgamentos apriorísticos, o psicoterapeuta que atua a partir da
existência tende a reconhecer o modo como cada existente articula sentido. Por
meio da comunicação indireta, o clínico cria condições para que o vínculo se
estabeleça, sustentando um contexto que facilite ao paciente o desvelar de suas
inquietações para outras possibilidades de se relacionar com aquilo que lhe
ocorre.
O presente estudo, em uma perspectiva de
reconstrução, realizou uma revisão narrativa da literatura, examinando artigos,
livros, dissertações, teses, dentre os suportes de fundamentação teórica que
puderam nortear o trabalho.
Reconstrução:
a
ansiedade em uma perspectiva biológica e social
Nessa
etapa da reconstrução, por meio de uma revisão narrativa da literatura,
buscamos materiais nas plataformas SciELO, PePSIC, Google Acadêmico, LILACS, em
livros e dissertações, com os seguintes descritores: ansiedade-angústia;
doenças mentais-ansiedade, fenomenologia-hermenêutica-ansiedade. Como
literatura primária, utilizamos Ser e tempo, de autoria de Martin
Heidegger, e os códigos de doenças mentais. Na literatura secundária,
recorremos a artigos, teses e dissertações.
Os artigos consultados apontam para o fato de
que, nas últimas décadas, a prevalência de diagnósticos de transtornos de
ansiedade em adultos aumentou, e tem se tornado um assunto que gera preocupação
e, por isso, necessário se faz que tenhamos mais conhecimento sobre o tema. Embora, às vezes, sendo considerados sinônimos, convém esclarecer
que o medo ocorre quando existe um estímulo desencadeador externo óbvio, já a
ansiedade é o estado emocional aversivo sem desencadeadores claros que não
podem ser evitados. A ansiedade pode se expressar por meio da tristeza, da vergonha
e da culpa ou, ainda, por cólera, curiosidade, interesse ou excitação (Baptista
et al., 2005). Na ansiedade,
aquele que é tomado por essa tonalidade afetiva não consegue se afastar da
situação temida, como ocorre com o medo, pois a ansiedade aparece quando a
totalidade de existência humana e seus valores são ameaçados (May, 1950).
De acordo com o Dicionário Houaiss, a ansiedade é um estado afetivo penoso, caracterizado pela
expectativa de algum perigo que se revela indeterminado e impreciso e diante do
qual o indivíduo julga-se indefeso e, ainda, com grande mal-estar psíquico,
aflição, agonia, desejo veemente e impaciente, falta de tranquilidade e receio.
A maneira prática de diferenciar ansiedade normal de ansiedade patológica, assinalam Castillo et al. (2000), é basicamente avaliar
se a reação ansiosa é de curta duração, autolimitada e relacionada ao estímulo
do momento ou não. Os aspectos clínicos, epidemiológicos, psicológicos e
biológicos da ansiedade patológica, provável distúrbio psiquiátrico mais comum,
têm sido investigados por inúmeros autores. Para a American Psychiatric Association (APA, 2014), a elevação dos níveis
de ansiedade também pode ser provocada pelos efeitos de alguma substância
tóxica ou de algum estado físico geral, e não ocorrem exclusivamente durante
uma perturbação do humor.
Como aponta o DSM-V (APA, 2014), os
transtornos de ansiedade costumam apresentar características de medo e
ansiedade em excesso, além de perturbações comportamentais relacionadas,
um
alto nível de ansiedade, porém o temor de estar doente não é acompanhado por
sintomas somáticos. Na CID temos como classificação e características: CID F41.1 - Ansiedade
generalizada - caracterizada por medo ou preocupação excessiva
persistente. Tal condição “não ocorre exclusivamente nem mesmo de modo
preferencial em uma situação determinada” (DATASUS, 2021, n.p.).
Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2017) cita que, em 2015, da
população global, 264 milhões de pessoas sofriam com algum
tipo de transtorno de ansiedade, representando um crescimento de 14,9% em
relação aos dados de 2005, considerando-se o crescimento e envelhecimento da população (OMS, 2017, tradução nossa)[1]. Existe um resumo
científico bem mais recente, de março de 2022, constatando um aumento mundial,
em 2020, de 25.6% em casos de transtornos de ansiedade, acometendo mais
mulheres do que homens, assim como jovens, principalmente entre 20 e 24 anos,
resultante dos altos estados de estresse causado pelo isolamento social e
outros fatores relacionados à pandemia (World Health Organization, 2022,
tradução nossa)[2].
Como vimos, por vezes, a caracterização da ansiedade pode estar apontada para a
ansiedade patológica, como doença mental, circunscrita aos critérios diagnósticos
a serem, com rigor, seguidos, como também, outras vezes, voltada à ansiedade
normal, primária, em seu papel funcional de enfrentamento das vivências de
mundo. Assim, cabe-nos imaginar seu tratamento via psiquiatria, na qual os
critérios diagnósticos são avaliados e corrigidos os desajustes dos sistemas gabaérgico,
serotonérgico, dopaminérgico, neuropeptidérgico, entre outros ou, ainda, via
psicoterapia.
A psicopatologia é a área da ciência voltada
aos estudos das causas, mudanças estruturais, funcionais e manifestações da
doença mental. Na psicopatologia, as definições básicas dos transtornos mentais
são formuladas e tomadas de forma arbitrária, com fins de potencializar sua
utilidade pragmática na clínica e na pesquisa (Dalgalarrondo, 2008).
Conforme Rocha Neto e Messas (2016), no modelo criteriológico operacional da
psicopatologia, a estrutura é a matriz fundamental da consciência do indivíduo
e portadora de todas as suas condições de possibilidades existenciais. Sua
modificação típica, por meio da sua transformação imobilizadora ou aquisição de
essências anômalas, é o que caracteriza a doença. Na psicopatologia
operacional, ou modelo criteriológico de Kraus (1994 citado por Rocha Neto
& Messas, 2016), não se questionam os fundamentos filosóficos, antropológicos
ou a natureza da doença mental. Com isso, as doenças passaram a ser definidas
por critérios específicos, previamente definidos, a serem preenchidos para o
diagnóstico que é atribuído quando o paciente apresenta um número mínimo de
sinais e sintomas, de acordo com a World Health Organization (1992). Em
consonância, Pinto (2021) diz que é preciso notar que, ainda que sejam
referenciais para orientar os profissionais em suas compreensões diagnósticas,
as definições do DSM são boas descrições de comportamentos, mas pouco ou
praticamente nada falam da vivência da ansiedade pelas pessoas. Ainda nas palavras de Andreasen (2007
citado por Rocha Neto & Messas, 2016), a prática psiquiátrica, guiada pelos
critérios operacionais do DSM e, posteriormente, pela Classificação
Internacional de Doenças (CID), causou significativo empobrecimento na
capacidade diagnóstica e de observação dos praticantes de psicopatologia. Os manuais orientam
para o controle ou a extirpação da ansiedade, nunca para o diálogo. Podemos imaginar
a necessidade do balizamento científico para o enquadramento de um diagnóstico,
especialmente de uma doença mental, como se caracteriza a ansiedade patológica.
Podemos imaginar o caos que seria sem esses critérios definidos como a
interpretação de cada profissional em sua manifestação de verdade, mas o que
pode depreender o examinador, além critérios diagnósticos pré-determinados?
Rocha Neto e Messas (2016) nos esclarecem que
a entrevista estruturada não garante que as perguntas certas serão feitas nem
que o examinador perceberá alterações subjetivas presentes nos pacientes examinados.
Com isso, os construtos diagnósticos tornam-se mais simples, mas extremamente
frágeis, uma vez que não descrevem adequadamente o quadro nosológico que devem
representar. O equilíbrio deve ser, sempre, o mediador do encaminhamento. O
enclausuramento fecha portas, mas o arejamento é
fundamental para a compreensão. Quando existe um
engessamento dessa concepção, o enquadramento do manual estabelecido com ênfase
apenas nas categorias diagnósticas, a subjetividade e as manifestações
particulares de cada indivíduo são desconsideradas em prol de uma definição
patológica que valide o tratamento mais rápido e efetivo (Brandão, 2017). Dessa
forma, ao nos limitarmos somente a uma concepção biológica da ansiedade, produz-se
uma visão patologizante que negligencia a experiência subjetiva e as sensações
e sentimentos experienciados de maneira singular pela pessoa (Pinto, 2021).
Vivemos em uma
sociedade pós-moderna na qual, todos os dias, aparecem mais e mais
influenciadores sociais dizendo o que e como fazer na vida, tornando-se mestres
de desavisados, desviando os propósitos da procura mais singular, ofertando
conclusões apressadas, esvaziando ainda mais o pouco autoconhecimento disponível,
levando o indivíduo a um copia e cola.
A vida,
pois, como movimento, é a única lucidez para quem busca aprender, e essa
interação, essas vivências, produzirão o novo. Este, à medida que nos fascina,
também nos amedronta e pode também gerar ansiedade. A
possibilidade do novo torna-se ameaçadora e a ansiedade manifesta-se como
resistência ao conflito, a excitação que deveria ser direcionada para enfrentar
o conflito é inibida e passa a se manifestar no corpo em forma de sintoma
(Belmino, 2020).
O que pode parecer uma solução apressada?
Discute-se aí a patologização e a medicalização. Ora, em uma
sociedade que busca suprimir o conflito (Belmino, 2020), a ansiedade é vista
como uma doença, um agente patológico que deve ser eliminado da experiência,
logo, criam-se mecanismos (terapias específicas, medicamentos) que permitam a
sua eliminação e, por fim, o foco torna-se a ansiedade e não o que a gerou,
deixando-se de lado o conflito e a novidade. Temos, até então, viajado pelos
mais diferentes pensamentos de muitos autores a respeito da manifestação e
classificação da ansiedade ou da angústia. Verifiquemos, pois, o que pensam
esses profissionais a respeito de seu tratamento pela perspectiva hermenêutica
do pensamento fenomenológico existencial.
Segundo Wulff et al. (1995 citado por
Caprara, 2003), a análise hermenêutica é um processo inicial indispensável
porque não tem sentido um estudo empírico das propriedades de uma pessoa sem se
ter analisado o conceito de pessoa. Por essa razão, a ciência natural é subordinada
à reflexão hermenêutica.
Desconstrução:
o que Heidegger tem a nos
dizer.
Na literatura primária, buscamos Ser e tempo, de Heidegger e seus
comentadores. Feijoo (2011), referindo-se ao modo de pensar a noção de sujeito
por Heidegger, destaca que esse filósofo inaugura uma outra
possibilidade de analisar o existente, que ele denominara Dasein. Nessa
compreensão, o sujeito não mais é visto em uma polaridade com o mundo na qual,
em uma unidade indissociável, o Dasein é compreendido como um campo
existencial de sentido e significados compartilhados e assentados na
temporalidade (Heidegger, 1927/2013). Para abordar o tema da ansiedade na
perspectiva da ontologia fundamental desenvolvida por Heidegger, vamos
primeiramente apresentar a disposição afetiva da angústia que, em sua
indeterminação originária, abre novas possibilidades, portanto, a imprevisibilidade
do que está por vir, ou seja, a oportunidade da apreensão e da ansiedade.
Dasein, para Heidegger, aponta para a não polarização sujeito e objeto, proposta
por Descartes, defendendo a unicidade como a essência do ser humano numa perspectiva
existencial. O Dasein não é simplesmente um ente entre outros entes, mas
ele se distingue dos demais pelo seu privilégio de ser o ente que pode pensar
sobre si mesmo, pelo fato “de, em seu ser, isto é, sendo, estar em jogo seu
próprio ser” (Heidegger, 1927/2015, p. 38). Assim, podemos imaginar que o Dasein,
como ser-no-mundo, carrega o caráter de poder-ser. Em seu caráter de abertura, Dasein é sempre um modo de estar
lançado diante das possibilidades da existência, visto que "existir
é já sempre se ver jogado em modos fáticos de ser” (Casanova, 2015, p. 92).
Como ser-no-mundo, esse homem acompanha o leito
caudaloso das águas da história, em contato com afetos de relação de sentido.
Casanova (2017) esclarece que o Dasein se mostra, pelo
ser-no-mundo, onde nos encontramos em relação aos outros (ser-com) e com as
coisas (ser-em), nas experiências mundanas que incorporamos. O ser-no-mundo implica, segundo Penha (1982), a relação do Dasein
com outros Dasein, que coexistem com eles, em
seu caráter de ser-com (mit-Sein). O existir humano não pode ser
considerado algo simplesmente presente e encerrado em si; "ao contrário,
esse existir consiste em meras possibilidades de apreensão que apontam ao que
lhe fala e o encontra e que não podem ser apreendidas
pela visão e pelo tato" (Heidegger, 2017, p. 33), de onde se depreende que esse homem se constitui o tempo todo pela
indeterminação e finitude.
O Dasein, na vida cotidiana, diz Penha (1982), mergulha em uma
espécie de anonimato que anula a singularidade de sua existência. Perde-se no
meio dos outros Dasein, buscando a
justificativa e o apoio de seus atos no impessoal. A experiência cotidiana do Dasein
transcorre dessa forma, na impessoalidade, o das man torna-se massa, alheia-se de si mesma.
Sobre o ôntico e o ontológico convém esclarecer que Heidegger nomina
essas dimensões do Dasein como existenciária para esta e existencial
para aquela. Por existencial (ôntico) entende-se a
compreensão que Dasein tem da sua
existência enquanto ente; da compreensão do ser enquanto o é temporal e
espacialmente no mundo. Já por existenciário (ontológico) entende-se a dimensão
que se refere às estruturas que constituem essa existência e que são comuns a
todo Dasein (Pó, 2015). Heidegger (2005) lembra que a analítica do Dasein
não tem o caráter de um entendimento existencial, mas
existenciário, no entanto, a analítica existenciária é, em última instância,
existencial, isto é, tem raízes ônticas. Entendemos daí que, ser-no-mundo é
condição sine qua non para o
poder-ser.
Heidegger (2015), em sua analítica existencial, refere-se à tonalidade
afetiva fundamental da angústia. É fundamental por ser ela o que poderá mover
esse ente para o seu acordar. A angústia, enquanto
tonalidade fundamental, opera carregando em si a possibilidade de desvelar o
si-mesmo, o Dasein desvelar mundo. É por isso que a abertura constituída
por ela é considerada privilegiada (Garcia, 2019).
Oliveira et al. (2021, p. 8)
corrobora essa tese, perguntando: “por que quando as referências dadas pelo impessoal
falham, surge a angústia? A angústia se depara com o nada, estreita-se a
relação entre o Dasein e sua abertura”. Angustia-se pelo fato de Dasein
ser indeterminado e necessitar, por si mesmo, decidir, a cada vez, no que deve
se tornar. Montenegro (2014) diz que, nesses instantes, é possível que rompamos com o cinturão pseudoprotetor gravitacional e nos
libertemos do fardo de pertencer a algum lugar, a algumas histórias e expectativas.
Assim, haverá a luz, sim, e uma vez diante dela, todas as infinitas
possibilidades se farão presentes ou de presença provável. E as palavras, e o
falatório, como são agora, deixarão de ser, e uma nova forma de comunicação se
dará. Códigos mudados, novos enunciados e mais além (Montenegro 2014, p.
78). A angústia, segundo Sá e Barreto (2011),
remete o homem à sua singularidade, ao seu próprio poder-ser-no-mundo. Por sua
função liberadora pode arrastar o homem para a propriedade de seu ser enquanto
possibilidade de ser, afastando-o da perspectiva impessoal e objetivante da
ocupação cotidiana. Também para Dantas, Sá e Carreteiro (2009), quando as
referências que sustentam a experiência de um mundo simplesmente dado falham,
aproxima-se a possibilidade de uma experiência mais própria do existir enquanto
ser-no-mundo. Heidegger (2005) afirma que, os entes
só podem se mostrar enquanto tal à medida que o ser-aí se depara com o nada,
pois é o nada que pode desvelar o ente em sua totalidade. A angústia,
anúncio da negatividade da existência, é uma tonalidade afetiva fundamental
que, ao descerrar o mundo, rompe com as sedimentações do mundo fático, lança o
horizonte de sentido, mundo, em uma insignificância radical (Feijoo, 2011).
Heidegger (1991, p. 39) afirma que “a angústia nos suspende porque ela
põe em fuga o ente em sua totalidade [...]". Tal suspensão refere-se ao
fato de ser-no-mundo, na angústia, põe-se em fuga, dando lugar ao nada, faz com
que somente continue presente o puro Dasein no estremecimento desse estar suspenso onde nada há em que se apoiar. Para
Inwood (2002, p. 95), quando habitada sem os subterfúgios da impessoalidade
mediana, a angústia "[...] desempenha um papel similar à Epoche de
Husserl, despindo as coisas de sua significação habitual". O admitir imediato não é uma certeza absoluta. Terá mesmo o
caráter de uma certeza qualquer? (Heidegger, 2017).
Montenegro (2014, p. 74), em uma perspectiva ôntica, com a arte de
doirar poeticamente o parágrafo, despede-se quando diz: “Em multiversos
imensuráveis de miríades de estrelas, o aprisionado aceita um toco de vela de
luz bruxuleante, como farol único da vida, no entanto, há vida depois do medo.
Há luz atrás do quadro sem mudanças do tédio”. Há movimento, descobertas,
cores, brilho, transmutações! Somente sentem-se prisioneiros os que fecham os
olhos para ver mais longe... Os que se contentam com as primeiras revelações e
a elas se apegam, como se verdades fossem por completo e para sempre
(Montenegro, 2014, p. 74). Não há mais prisões, nem guardas de fronteiras, nem
balizas ou carta de navegação. Agora é o infinito, através da lona rasgada do
velho circo mambembe, que levou pelos espaços confusos os palhaços híbridos de
alegria e tristeza, que fomos nós (Montenegro, 2014, p. 75).
Da Silva e Décio (2020), dando continuidade a uma reflexão ôntica,
comentam que vivemos em uma temporalidade corrosiva, que desconecta o ser
humano de sua realidade mais próspera e mais equilibrada. Essa desconexão é
requisitada pelo tempo atomizado que, com sua dinâmica, alterou nosso aí,
levando o homem a um comportamento ansioso em todo convívio social e individual.
Em uma análise fenomenológica da ansiedade, Borges-Duarte (2018) diz que
ela se expressa pela experiência de aceleração de um tempo sem tempo para
hiatos e demoras, um contínuo de momentos fragmentários, de urgências
diferentes sucedendo-se ininterruptamente sem estarem ligadas entre si. A
ansiedade decorre do modo de ser existencial do ser humano, haja vista ser uma
correspondência de ser-no-mundo. Ser-estar-ansioso é, portanto, uma condição
preconizada pelo seu “aí”, isto é, pelo seu ser fora de si, ou seja, o Dasein,
de acordo com Da Silva e Décio (2020, p. 294).
Heidegger (2017, p. 181), em Seminários de Zollikon, aproxima-se da
questão da ansiedade da seguinte forma: “[...] o anseio: quem anseia é o Dasein.
O ansioso é o próprio ser-no-mundo”. A vida se dando, acontecendo nesse vão enquanto espaço, nessa abertura
provedora de sentido, esse caldeirão do enquanto, foi o que Heidegger nomeou
como existência, ser-no-mundo, Dasein. Nessa direção, Sá e Barreto
(2011) afirmam que a existência, enquanto ser-aí, é a
clareira do ser, a abertura na qual o ente destituído de mundo poderá vir ao
encontro e revelar-se em seu ser, vir à luz. O homem, como essência, consiste
em ter que compreender a si mesmo, nesse fora (ec-sistência) para o qual
está voltado como possibilidade de ser ou não ser ele mesmo, preocupando-se na
construção de significados para fugir do vazio existencial e da vida sem
sentido, mas enquanto ente cujo modo de ser
está em jogo temporalmente (primado ôntico) (Heidegger, 2005).
Esse não saber de seu destino que se encontra a todo tempo em jogo no
existir temporal, se esclarece quando defende Heidegger que “A vida humana
encerra em si mesma numa regulamentação temporal” (2008, p. 2), o que apontaria
para o estado de alerta que nos encontramos que, levado a uma maior intensidade
e luta pelo controle, pode ser compreendido onticamente como transtorno de
ansiedade?
A postura do
psicoterapeuta, a atitude fenomenológica e o ser-no-mundo
A questão que agora
se impõe e a perspectiva teórica que dá base à postura do psicoterapeuta na
clínica afeta diretamente o modo como a queixa de ansiedade vai ser
trabalhada? Imaginávamos o cenário de, a
despeito de toda pesquisa amplamente demonstrada nos capítulos anteriores, que
o manejo do trato clínico ainda se pautasse pela atitude natural, por exemplo.
Notadamente, dizíamos, que o esforço e sentido dessa pesquisa perder-se-iam se
o timoneiro de sua aplicação não estivesse igualmente acordado com tais
prerrogativas, estreitamente ligado ao mesmo entendimento. Portanto, qual
deveria ser a postura clínica do psicoterapeuta com bases existenciais sob tais
circunstâncias?
Escuta como
ação clínica
Oliveira e Borba (2019) dizem que não somente no que tange o
comportamento da pessoa atendida, a ação fenomenológica permite também para o
psicólogo inclinar-se ao modo de estar consigo próprio e com o outro na clínica
psicológica, uma vez que pode questionar sua prática e seus fundamentos,
aperfeiçoar sua maneira de atuação, recursos, métodos e habilidades no processo
clínico. Por outro lado, a iminência de uma ruptura, de uma descontinuidade do
poder-ser da existência, machuca, dói e é nesse estado que o paciente, mesmo
sem ter tanta certeza dessa dor, procura a psicoterapia. Eis o momento raro,
valioso, único em que aquele que procura a psicoterapia abrirá sua intimidade
com toda crença, e ele o faz não para que alguém o veja dentro de uma teoria ou
para que elabore uma a partir do que fala, como dito
por Sapienza (2004), mas sua existência se abre para ser compreendida. O
psicoterapeuta, claro, como escreve Luczinski (2010), tem sua responsabilidade
no desencadeamento desse processo, mas isso não significa onipotência ou
controle. Diz Sapienza (2004) que o paciente tem pressa: primeiro, porque ele
está sofrendo; segundo, porque acredita que, se um tratamento é bom, deve ser
rápido; no entanto, como supor uma fenomenologia apriorística, aligeirada e
ansiosa para a solução de um problema?
Merleau-Ponty (1999) nos lembra
que, ao perceber o outro apenas como um isso, um objeto, há um afastamento da
sua presença viva; que acessar o outro como representação é desconsiderar a sua
humanidade, a vida que lhe é dada enquanto homem. Portanto, estar com o outro
na clínica supõe disponibilização para o fenômeno que ali se mostra como tal,
naquele momento, excluindo daí prévios entendimentos ou aparatos técnicos-esquemáticos sobre a mente do outro, que não é a
minha, que não sou eu. Pompeia e Sapienza
(2004, p. 169) descrevem psicoterapia como “[...] a procura, via poiesis, pela verdade que liberta para a
dedicação ao sentido”.
O saber
apriorístico e a suspensão
O risco dos aconselhamentos, das orientações a partir da sabedoria de
vida e as prescrições de autoajuda, segundo Feijoo e Protasio (2010), apontam para a necessidade da tutela daquele que sabe,
orienta e ensina como auto ajudar-se, tal como proposto em um horizonte
cientificista ou do senso comum, nos quais reina o ideal de verdade, vontade,
transparência e método e isso não constrói a autonomia tão necessária ao paciente.
Mahfoud (1989, p. 574) lembra que não é o saber isolado nem do terapeuta, nem
do cliente, pois, "[...] não sou eu - por
mim mesmo - que consigo que o outro faça certo caminho e mude,
se abra e se centre. Não é nem o outro por si mesmo - tanto que pede ajuda. Mas
cada um participa com o que é, terceiro elemento, integra e compõe um movimento".
Há um dito popular que diz: Cada cabeça, uma sentença. Nada mais
esclarecedor para o psicoterapeuta que insiste em um atendimento tecnicista em
que as coordenadas já estão postas como blocos de mensuração sobre o paciente.
Ora, cada pessoa reage de forma distinta enquanto afeto e emoções que compõem
seus atos psíquicos, portanto impacta-se com o mundo ao redor; responder a ele,
segundo (Ales Bello, 2004), trata-se de uma capacidade inerente a todos os
seres humanos, porém os fenômenos a que reagem, o
conteúdo e o modo dessas reações serão diferentes para cada um. Isso nos parece
decorrer da insistência na atitude natural de Husserl que nos leva a considerar
aquilo que encontramos no mundo, o fenômeno, como se pronto já fosse, desde
sempre, ignorando completamente, por tal, nossa relação de sentido com o que
nos é dado. Colocar-se em perspectiva fenomenológica é, para Sá e Barreto
(2011, p. 2) suspender essa suposição "natural” de uma realidade “em
si", realizar uma epoché retornando para as coisas apenas
enquanto dadas à experiência; é envolver-se em um modo de atenção em que
experienciamos com toda evidência que o mais concreto não é essa suposta
"realidade-em-si" do mundo, mas é sempre o próprio acontecimento
imanente da experiência enquanto dinâmica constitutiva de sujeito e objeto.
A postura
clínica e a técnica
A postura clínica para a analítica existencial ainda
passa pela preocupação com a forma exacerbada do uso da técnica na qual parece
querer estabelecer vida, movimento de ser-no-mundo, como forma exata, traçada,
preparada, puramente tecnicista, mas, ser-no-mundo através de um manual de
procedimentos técnicos, e não como possibilidade do vir-a-ser, o mundo,
enquanto sentido, não está sendo questionado, apenas se instalando como
verdade. Assim, a técnica, como posta, parece mais uma continuação do falatório
do impessoal. A técnica não cuida, descuida, diz Feijoo (2010), não deixa que
as coisas surjam a seu modo na natureza. O homem jogado no mundo, dizem Pompeia
e Sapienza (2011), na impessoalidade, no “todo mundo”, é absorvido pela vontade
autônoma da técnica. Para Heidegger (2017, p. 53), “temos a pretensão de determinar o ser homem por meio de um método que
absolutamente não foi projetado em relação à sua essência peculiar”.
Esse maravilhamento e sedução pela técnica, como tal,
tampona a falta da busca; coisifica a grandeza do ato psicoterapêutico; ela
deve somar e não se apresentar como o resultado final da operação. O problema
com a técnica, para Sá (2017), diz respeito à disposição de fascínio que ela
impôs ao homem, fazendo com que o sentido dos entes, sua essência, se reduzisse
exclusivamente ao aspecto que ela, técnica, desvela. Como técnica ela é o
enquadre, o insípido, um conhecimento operatório, o correto, mas seria o
verdadeiro? O desvelamento que rege a técnica moderna é uma pro-vocação (Herausfordern)
pela qual, diz Heidegger (2012, p. 20), a natureza é intimada a entregar uma
energia que possa, como tal, ser extraída (herausgefordert) e acumulada.
Seria o forçosamente extraído de forma correta, o verdadeiro? O pensar é o
pensar do ser. Assim, onde o pensar é posto de lado, a técnica (tékhne)
é valorizada (Heidegger, 2005, p. 13).
A análise hermenêutica é essencialmente interativa e implica a
autocompreensão do intérprete no processo de compreensão do outro (Sá, 2017). Praticar a
psicoterapia em uma perspectiva fenomenológica, diz Feijoo (2010), implica
substituir a interpretação explicativa teórica pela hermenêutica compreensiva,
que se constitui em uma possibilidade de desvelar sentidos a partir daquilo que
se manifesta por meio da compreensão.
A postura
clínica e o ser-no-mundo
Em Heidegger (2012), a experiência será estudada como a existência que
se coloca ao ser-aí em seu ser-no-mundo. Sua análise fenomenológica parte da
existência humana, do ser-aí, do movimento do ente, de onde se originam os
sentidos. Verifiquemos, pois, a postura do psicoterapeuta sob tal entendimento.
O ente, em seu ser-no-mundo, viverá sob as trombetas do falatório impessoal e
sua singularidade pode se dar por aquilo que do impessoal ele se apropria.
Ter-que-ser-si-mesmo, segundo Oliveira et
al. (2021), já é comumente ocultado pelo falatório do impessoal, mas que,
durante um processo psicoterapêutico, pode ser desvelado pelo paciente como
espaço para a construção de um projeto existencial próprio. Essa análise
existencial como possibilidade de cuidado clínico, de acordo com Mattar (2019),
acontece como despsicologização do olhar, da escuta e das situações de
sofrimento que se dão em seu mostrar-se. A análise
existencial é a suspensão das determinações já dadas para que o campo
fenomênico possa aparecer. Em Heidegger (2012),
vemos que não se pode recair em simplificações ônticas predicativas acerca do
ente, pois isso pressupõe uma relação apontada e dada, na qual já se tenha revelado
em suas possibilidades. Abre-se mão da verdade da existência, completam Morato
e Sampaio (2019), em nome de uma verdade universal e correta das ciências
naturais, familiaridade cotidiana que tende a encobrir qualquer surpresa e, no
entanto, estranhar é realizar um esforço de questionar o já sabido e de não se
sentir em casa. Heidegger (2012) pontua que o estranhamento (Unheimlichkeit)
fala de uma perda da cotidianidade mediana, retirando-nos da segurança do
familiar. Ou, ainda, a expressão “a prontidão
serena de espantar-se” em sua conferência sobre a técnica moderna (Heidegger,
2012, p. 25), como uma escuta que se alinha com o verdadeiro, o desocultamento,
o essencial, não o exato, o relatado, o informado.
Ora, se o desconhecimento da singularidade é próprio da impessoalidade,
o ente, mesmo aí na impessoalidade, acha que já conheceu tudo, ele não sabe o
que existe além, isso extrapola seu conhecimento. Ao terapeuta, portanto, cabe,
de forma indireta e com muito jeito, instigar a possibilidade do abrir-se à
subjetividade. Feijoo (2008) esclarece que,
partindo do pressuposto de que o homem se constitui no mundo, em um jogo de ser
si-mesmo e não ser si-mesmo, fica muito fácil tornar-se presa dos ditames do
público. No entanto, esse homem acredita ter total liberdade na sua escolha,
quando, na realidade, escraviza-se às solicitações do mundo moderno. A clínica, sob o pensamento existencial, procura desvelar o
ser do homem, resgatando suas estruturas existenciais, negando teorias que não
estejam alinhadas com o sentido da existência. Para a perspectiva fenomenológico-existencial,
o importante não é responder pelo paciente, mas acompanhá-lo, quebrando as habitualidades
e desconstruindo o impessoal (Sá & Barreto, 2011). À
psicoterapia cabe acompanhar aquele que esqueceu do
seu caráter de poder-ser e, no desvelamento de sua situação, como escreve
Feijoo (2010), poder resgatar a
possibilidade de sua liberdade e ao psicoterapeuta - em uma proposta
fenomenológico-existencial, assumindo uma atitude antinatural - tentar, em um
exercício do cuidado no modo da preocupação, assumir uma postura libertadora em
um desvelamento das possibilidades do ser-aí. Não há nenhum direcionamento, mas a desconstrução das
meras opiniões ditadas pelo falatório do impessoal e a quebra das habitualidades
abrem fissuras que, como ensina Heidegger (2017, p. 101), deixam entrever
possíveis mudanças, transformando o acontecer clínico em experiência apropriada
e tematizada, constituída por “aceitar simplesmente aquilo que se mostra no
fenômeno do tornar presente e nada mais". Para Pompeia e Sapienza (2004,
p. 169), é possível afirmar que a "terapia é a procura, via poiesis, pela verdade que liberta para a
dedicação ao sentido". E o que dizer do
ser-aí em seu ser-no-mundo quando, enfim, atingido pela angústia ontológica,
silente e surdo ao falatório impessoal, balançado e prestes a revelar
possibilidades que, sob cuidados atentos do terapeuta,
propiciem sua emersão à singularidade?
Eis a tarefa do psicoterapeuta existencial: resgatar o homem singular
que se encontra perdido no geral, pelo diálogo, na maior parte do tempo, de
forma indireta, reconhecendo-se em seu projeto, naquilo que lhe é mais
fundamental, estando sempre atento para que ele, o terapeuta, ao invés de
propiciar tal resgate, não venha se deixar perder no geral, nas demandas e nos
convites doirados do mundo. A sereia canta! Terminemos com o apaziguamento do
nosso mestre da analítica existencial: Em suas palavras, Heidegger (1959, p.
25) diz: “a serenidade em relação às coisas e a abertura ao segredo são
inseparáveis. Concedem-nos a possibilidade de estarmos no mundo de um modo
completamente diferente”.
Manejos
clínicos em situações de ansiedade
Podemos perceber a prevalência e decorrente
relevância da ansiedade em nossa contemporaneidade como sofrimento corriqueiro em parte expressiva de nossa sociedade
pós-moderna, assim como inexpressivo conhecimento desse público ansioso e
sofrido sobre o melhor entendimento e tratamento desse transtorno que tanto
desgasta, debilita, exaure e adoece seu portador. Por tal desconhecimento sobre
esse sofrimento existencial, muitos encaminhamentos ainda estão sobre o protetorado
de diagnósticos meramente estabelecidos pelos sinais e sintomas ou por entendimentos
causalistas e explicativos em uma visão aligeirada, medicamentosa e
patologizante, num viés, predominantemente, biomédico sobre a experiência da
dor na qual o foco é a cura e a eliminação dos sintomas.
Podemos
enxergar o tratamento psicoterápico como alternativa ao tratamento biomédico
patologizante e não somente isso, mas, e principalmente, que seja ancorado numa
psicologia que não se limite ao jugo da cientificidade e da eficiência da
técnica. As evidências são claras em se tratando das
contribuições da atitude fenomenológica para a compreensão da ansiedade, como
alternativa ao homem ansioso ao modo positivista, objetivo,
constituintes da atitude científica natural. O método de Edmund Husserl via
atitude fenomenológica como instrução de retorno às coisas em si mesmas,
captando o sentido do fenômeno como ele se mostra em sua essência, capacitando
as vivências puras da consciência, habilita a esse homem ansioso ter maior
compreensão de sua ansiedade uma vez que passará a entender mais e melhor o
fenômeno como se apresenta e não como compreensão apriorística, técnica,
simplista, natural, que poderá enganar sua percepção, levando-a a distorcer tal
fenômeno, causando-lhe ansiedade e sofrimento por algo que sequer existe, posto
que percebido distorcidamente.
A
analítica existencial, por sua vez, traz à cena a movimentação do ente em seu
espaço originário de significações numa relação de ser-no-mundo em seus modos
existenciais, em sua temporalidade, em seu exercício de apenas poder-ser, de
estar inserido, em contato com os afetos mais díspares em uma relação de
sentido ou ainda na falta dela, em sua performance
relacional, nas experiências fáticas que ocupam sua rotina existencial. Se a
ansiedade pode decorrer daí? Sim. É humanamente possível, que sim. É possível
perceber, ainda, que os benefícios da reflexão, da contemplação, da suspensão,
assim como o conhecimento de sua possível emersão à singularidade, da beleza
decorrente do ato de pensar, poderiam trazer a esse Dasein ansioso o
refrigério das dopaminas daí surgidas, com as quais o corpo humano acostumou-se
enquanto bem-estar; no entanto, a anestesia da multidão, o
torpor do impessoal o fazem suprir essa falta por psicofármacos
imediatos, direto na veia, substituindo e cancelando até o exercício libertador
de sua procura, de sua própria produção meditativa. "O ser-aí é o que, sendo, está em jogo como
seu próprio ser" (Heidegger, 2012, p. 303).
Toda essa viagem pelo pensamento dos autores pesquisados
passa pelo questionamento inicial do problema desta pesquisa, quando
perguntávamos: de que maneira o
trato clínico, à luz da atitude fenomenológica e da relação do ser-no-mundo,
pode compreender a experiência da ansiedade? Dessa forma, nosso esforço de
pesquisa encontrou resposta e nesse sentido veio dizer que sim, confirmando, de
modo largo, nossas hipóteses.
Releve-se, ainda, a postura do psicoterapeuta no
atendimento clínico enquanto profissional ocupado com a existência, abrindo
possibilidades ao diálogo entre as diferenças, buscando uma abertura com o
outro, suscitando o questionamento daquilo que já vem pronto na tentativa de
transpor a lógica individualista e dicotômica que apequena e discrimina o
divergente enquanto experiência humana existencial.
Considerações
finais
Chegamos ao final de nossas considerações sobre a
ansiedade e os manejos clínicos e sentimos falta de mais pensadores virtuando
no caminho de nosso trabalho. À medida que avançou-se
na pesquisa, entendeu-se melhor a relevância de seu perfil como gerador de
novas linguagens, como libertador de um entendimento encurtado, tão vasto e
profundo são os corredores da existência humana em seu ser-no-mundo. Sendo um
assunto tão amplo e tão profundo e que carrega tantas benesses, imaginávamos
ter sido muito mais estudado e publicado. Espera-se, ainda, por uma pesquisa de
campo com entrevistas para quantificação percentual de terapeutas da abordagem
fenomenológica-existencial que estejam atentos ao uso das contribuições da atitude fenomenológica e a relação ser-no-mundo
para melhor compreensão da ansiedade, pensando-a como um modo possível de
expressão da angústia. Trilhamos, agora, esse caminho e esperamos que outros
continuem a trilhá-lo.
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Curriculum
Antônio Astério
Rodrigues
Bacharel em Psicologia pela Unidade de Ensino Superior Dom Bosco (UNDB).
Associado do Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de
Janeiro (IFEN) e Pós-Graduando na Especialização em Psicologia Clínica na
Perspectiva Fenomenológico-Existencial do IFEN, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. CRP
22/05970.
Correo
de contacto:
Ana María L. C. de Feijoo
Investigadora de la Universidad del Estado del
Rio de Janeiro (UERJ) y del Centro Nacional de Pesquisa (CNPQ). Profesora Titular de
la graduación y postgrado en Psicología Social en la Universidad del Estado del
de Rio de Janeiro. Estudios postdoctorales en filosofía en la Universidad
Federal del Rio de Janeiro (UFRJ) (2010), doctorado en Psicología de la UFRJ
(2000) y maestría en Psicología por la Fundação Getúlio Vargas (FGV/ISOPE -
1983). Investigadora de situaciones de
suicidio y duelo.
Correo
de contacto:
Fecha
de entrega:
2/12/2025
Fecha de aceptación: 29/12/2025
[1]
The total estimated number of people living with anxiety disorders in the world
is 264 million. This total for 2015 reflects a 14.9% increase since 2005 [5],
as a result of population growth and ageing.
[2]
An estimated 25.6% increase (95% UI:
23.2–28.0) in cases of anxiety disorders (AD) worldwide in 2020. Females were
more affected than males, and younger people, especially those aged 20–24
years, were more affected than older adults.
Enlaces de Referencia
- Por el momento, no existen enlaces de referencia