Revista
Latinoamericana de Psicoterapia Existencial. UN ENFOQUE COMPRENSIVO DEL
SER. Año 16 - Nº 32 – Abril
2026
Ser-Tons: Veredas
Rio de identidades tomado de afetos
Ser-Tons: Paths
A river of identities filled with affections
Rafael Garcia
Vasconcelos
Rio de Janeiro –
Brasil
Trabajo ganador del Premio Pablo
Rispo en la categoría Aportes Originales presentado en sesiones coordenadas
en el XII Congreso Latinoamericano de Psicoterapia Existencial
Resumo
Este artigo medita sobre a noção de identidade
como substância fixa, tanto no campo da psicologia clínica quanto nos projetos históricos
de interpretação nacional. Tomando como horizonte os sertões brasileiros, o
texto articula filosofia, literatura e clínica para tensionar
os modos contemporâneos de nomeação, especialmente aqueles que operam por meio
de diagnósticos, categorias identitárias e exigências
de reconhecimento. Em diálogo com Kierkegaard,
Heidegger, Sartre, Byung-Chul Han
e Ana Maria Feijoo, propõe-se compreender a
identidade não como essência, mas como travessia, escuta e afinação com o
mundo. A literatura de Guimarães Rosa e o gesto antropofágico oferecem vias de
pensamento que resistem à cristalização do eu e sustentam a abertura da
experiência. Ao final, nos encontramos com uma clínica que sustenta a escuta do
que ainda não foi fixado, como gesto ético e político diante das pressões
contemporâneas de estabilização do viver.
Palavras-chave
identidade; psicologia clínica; antropofagia; literatura
brasileira.
Resumen
Este artículo reflexiona sobre la noción de
identidad como sustancia fija, tanto en el campo de la psicología clínica como
en los proyectos históricos de interpretación nacional. Tomando como horizonte
los sertões brasileños, el texto articula filosofía,
literatura y clínica para tensionar los modos contemporáneos de nominación,
especialmente aquellos que operan a través de diagnósticos, categorías identitarias y exigencias de reconocimiento. En diálogo con
Kierkegaard, Heidegger, Sartre, Byung-Chul Han y Ana Maria Feijoo, se propone comprender la identidad no como
esencia, sino como travesía, escucha y afinación con el mundo. La literatura de
Guimarães Rosa y el gesto antropofágico ofrecen vías de pensamiento que
resisten la cristalización del yo y sostienen la apertura de la experiencia. Al
final, nos encontramos con una clínica que sostiene la escucha
de aquello que aún no
ha sido fijado, como un gesto ético y político frente a las presiones
contemporáneas de estabilización del vivir.
Palabras clave
identidad; psicología clínica;
antropofagia; literatura brasileña
Abstract
This article reflects on the notion of identity as a fixed substance,
both in the field of clinical psychology and in historical projects of national
interpretation. Taking the Brazilian sertões as its
horizon, the text brings philosophy, literature, and clinical practice into
dialogue in order to problematize contemporary modes of naming, especially
those that operate through diagnoses, identity categories, and demands for
recognition. In conversation with Kierkegaard, Heidegger, Sartre, Byung-Chul Han, and Ana Maria Feijoo,
the article proposes understanding identity not as essence, but as a passage, a
form of listening, and an attunement to the world.
The literature of Guimarães Rosa and the
anthropophagic gesture offer paths of thought that resist the crystallization
of the self and sustain the openness of experience. In conclusion, the article
arrives at a clinical perspective that upholds listening to what has not yet
been fixed, as an ethical and political gesture in the face of contemporary
pressures to stabilize life.
Keywords
identity; clinical
psychology; anthropophagy; brazilian literature
Introdução
Nenhum Brasil existe. E acaso, existirão os brasileiros?
Carlos Drummond de Andrade
Tem muita dor nessa primeira linha além de uma certa
aleluia — e é com um precioso medo que trago a saga de ser quem fui sendo, à
procura de uma identidade. Descobri nesta vereda amar a palavra sendeiro por
remexer trilha, ciranda, ser, tempo — tudo aqui no que é mim. Poderíamos até
começar por aqui. Mas ando apaixonado, e escrever frouxo tem me ajudado a
soltar a musculatura na academia. A arte e a música margeiam minha vida, e me
machuca profundamente a maneira como a sedimentação positivista que acontece na
psicologia nos dias de hoje, o desprezo ao afeto e a cristalização do sujeito
nas disciplinas me afastaram dela.
Vivemos num tempo em que a identidade se tornou um imperativo — como
aponta Han em A sociedade da transparência (Han, 2017), somos continuamente convocados a nos mostrar,
nos definir, nos apresentar. É preciso declarar-se, afirmar-se, categorizar-se
— inclusive na dor. Diagnósticos como TDAH, transtorno de personalidade borderline ou depressão maior, que antes buscavam nomear
sofrimentos, hoje passam a ocupar o lugar de senhas de pertencimento e molduras
de reconhecimento. Tornam-se modos de existir socialmente legíveis, cifras de
acesso a escutas, espaços e cuidados.
Nesse cenário, também nos vemos diante de formas de escuta clínica que,
muitas vezes, operam sob fortes exigências de
eficácia, previsibilidade e mensuração. Protocolos, métricas e indicadores de
desempenho passam a orientar práticas que, embora bem-intencionadas, podem
acabar estreitando a escuta ao que já está previsto e que pode ser quantificado
ou nomeado de antemão. Não se trata de negar convenções e nomeações, mas de
recusar tomá-las como ponto de chegada.
O meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro… meu
pronome eu cantei cedo. Nasci em um mundo carente de grampos, educado como se a
vertigem precisasse de escalas, nomes e fórmulas previsíveis, tranquilo e
favorável. A antiga música também foi atravessada por essa sanha de
domesticação: Pitágoras a matematizou como harmonia universal; Platão a vigiou
como ameaça à ordem da cidade (Adorno, 2009). Por trás dessas tentativas, uma
vontade de controle: capturar o som numa pauta, a afinação em número, o
encantamento em sistema. Uma espécie de desespero — como diria Kierkegaard (1979) — de quem não suporta a abertura, e por
isso precisa transformar o inacabado em identidade, a variação em variância.
Desenvolvimento
Ao longo dos séculos, a pergunta sobre o que somos — como povo, cultura,
indivíduos — reaparece como ferida e promessa, sem nunca encontrar repouso. No
Brasil, essa pergunta reverberou em projetos que tentaram captar uma essência
nacional, fixar um modo de ser coletivo, atribuir uma substância própria ao que
se convencionou chamar de “alma brasileira” (Rocha, 2003). Assim como se buscou
definir o que é uma nação — fixando territórios, traços culturais, raízes e
essências —, por vezes, tenta-se substantivar o verbo eu.
A clínica, nesse sentido, não escapa. Como se fosse preciso nomear
rapidamente a dor, encaixá-la em categorias, rotulá-la com etiquetas que
assegurem seu lugar. Em vez de sustentar a escuta como campo de ressonância,
antecipa-se o sentido e fecha-se a abertura. A identidade, aqui, deixa de ser
travessia e passa a funcionar como ingresso que autoriza a presença em certos
circuitos — mas que, ao mesmo tempo, pode interditar a experiência.
Esse movimento de fixação identitária não é
novo na América Latina. Podemos identificá-lo nas tentativas intelectuais de
nomear o Brasil. Da Canção do Exílio à Casa-Grande & Senzala
(Freyre, 2023), passando por Raízes do Brasil (Holanda, 2014), vê-se o
duplo esforço de interpretar e forjar uma identidade nacional, conceituando
modos de ser, estruturas de caráter e matrizes
históricas.
Mesmo quando críticos, esses textos permanecem ancorados em paradigmas
de sua época, marcados pela busca de uma essência nacional. Os Sertões,
de Euclides da Cunha (1995), por exemplo, foi publicado em 1902 — ano que quase
coincide com A interpretação dos sonhos, de Freud (1996), lançado em
1900. Ainda que situados em campos distintos, ambos os autores compartilham o
pertencimento a um momento em que o pensamento ocidental se organizava sob o
gérmen da estrutura, da topografia, da compactação das formas da experiência.
São obras incontornáveis, que seguem provocando o pensamento comum, mas também
revelam o peso de uma herança datada, em que a identidade tende a se
cristalizar deterministicamente como substância, diagnóstico ou sentença.
A Semana de Arte Moderna de 1922, ainda que ensaiasse um gesto de
ruptura estética e política, não se desvencilha por completo da busca por
fundamentos. Deseja, também ela, dizer o Brasil: uma
brasilidade possível, mestiça e autêntica, como se fosse extrair de sua
história uma essência cultural própria. Mesmo ao romper com modelos europeus,
propunha-se a afirmar um solo — uma linguagem, um corpo, um imaginário —
originariamente brasileiro. O “moderno”, aqui, ainda carregava a ânsia de um
centro: era preciso nomear a singularidade nacional.
Em Raízes do Brasil (Holanda, 2014), publicado em 1936 e reeditado
diversas vezes com alterações substanciais feitas pelo próprio autor, a
metáfora fundante é a da raiz que finca, que ancora,
que pretende oferecer um solo firme à identidade nacional. Sérgio Buarque de
Holanda, mesmo ao criticar a herança ibérica e o personalismo patrimonialista,
ainda busca delinear um tipo, uma estrutura de caráter que possa explicar o
país — como no caso do homem cordial, figura que sintetiza o entrelaçamento
entre esfera pública e afetos privados.
Terra, sedimento, cristalização, micélio, rizoma, raiz… Por que tantas
imagens do chão? O que nos move nessa busca por um húmus, por uma base que
funde e fundamente, como se a identidade só pudesse emergir de algo fixado no
subterrâneo? Freud (1996) evoca o micélio para pensar paleontologicamente
as tramas invisíveis do inconsciente e o umbigo do sonho. Deleuze e Guattari (1995), em Mil Platôs, propõem o rizoma
como forma de escapar às estruturas hierárquicas, mas ainda assim se enraízam
em uma imanência intensiva, onde a proliferação de sentidos não deixa de
rastejar no solo e cavar vínculos com um plano de consistência. Na linguagem
acadêmica psi, fala-se em sedimentações, estruturas
profundas, camadas inconscientes mas pouco do que nos
erode. Mas o que é isso — esse apelo à terra como
promessa de verdade?
As veredas do Grande Sertão nos auxiliam, não como objeto de
análise literária, mas como campo de pensamento. A filosofia que atravessa a
escrita de Guimarães Rosa oferece um modo de lidar com a experiência que escapa
às tentativas de fixação (Rosa, 2001). Em vez de propor um tipo nacional ou uma
síntese identitária, a narrativa se constrói no
entremeio das dúvidas, dos desvios, das ambiguidades. Riobaldo,
seu narrador, fala em confissão, mas o que se apresenta é uma construção
contínua de si — marcada por codinomes como Tatarana,
Urutu Branco, e por mudanças de trajetória que impedem qualquer definição
estável. Não se trata de afirmar quem ele é, mas de acompanhar o modo como ele
se transforma, hesita e tenta compreender o pacto que viveu.
A aposta deste projeto é que a literatura — mais do que ilustrar a
teoria — pode pensar: como dobra de mundo, campo de sentidos que desloca,
sustenta e afeta. Em Rosa (2001), o sertão é o mundo: território de coragem,
risco e travessia. Sua estrutura narrativa, errante e entrelaçada, recusa o
fechamento e sustenta a ambivalência. Rosa não encerra o sentido; faz com que
ele vibre, dansando[1] nas margens da linguagem. Ao colocar o eu em movimento, sua escrita
oferece uma via para a clínica — não como lugar de estabilização, mas de
travessia. Inspirado por esse gesto, buscamos com ser-tons, não uma
sistematização que abarque o imensurável. Pois até o mar morre na garrafa. A
onda, o som e o medo profundo, em meu transparente laboratório será sal
diluído, sem água-viva. Só assim vejo que não nasci para separar ar de vento.
Arando areia de dunas, interessa-me mais escutar as afinações possíveis — as
dissonâncias que desafinam, variações tímbricas que não se reduzem a claves em partitura. Há
sentidos que só ressoam quando a escuta abdica de identificar.
No ocidente ainda mais antigo, não havia um “eu” voltado para dentro,
mas uma identidade forjada no gesto, na palavra e no olhar do outro. Nos tempos
homéricos, ser, não significava introspecção, mas presença pública: o guerreiro
era sua fúria, o rei sua promessa cumprida, o herói a narrativa dos bardos.
Como observa Ana Maria Feijoo (2010), não existia a
noção de indivíduo como sujeito de si, mas de figura exposta. Aquiles não se
angustia diante de si mesmo, mas diante da escolha trágica entre vida longa e
esquecimento ou morte breve e glória eterna. Ulisses não busca
autoconhecimento, mas retornar à sua forma de vida: rei de Ítaca,
esposo e pai. Essa identidade, tecida e moldada pela moira, não era invenção
pessoal, mas destino. Só mais tarde a filosofia passaria a deslocar o centro da
verdade para o interior, abrindo o caminho para a tradição metafísica que
buscaria fundamento, permanência e estabilidade em oposição ao que escorre.
Com Agostinho, a identidade gravita no dentro: o eu como alma que
confessa e busca a verdade em si. Na modernidade, Descartes radicaliza essa
introspecção com o cogito, fundando o sujeito autônomo e centrado na
consciência. Kant, por sua vez, desloca o fundamento para a razão, sustentando
a identidade na unidade da consciência e na continuidade do eu ao longo do
tempo, preservando a busca por estabilidade (Ferreira, 2003, p. 27). Já Kierkegaard (1979) rompe com essa lógica ao pensar o eu não
como substância, mas como relação: síntese de finito e infinito, tarefa em
aberto, atravessada pela angústia que revela a ausência de essência prévia.
Assim, a identidade se torna travessia, decisão e responsabilidade ao invés de
estrutura.
Heidegger, então, radicaliza esse deslocamento ao propor que o ser humano
não é um sujeito que contempla o mundo de fora, mas um Dasein — sempre
no mundo, em situação, aberto ao tempo e às possibilidades do existir
(Heidegger, 2012). O ser não é algo que se possui, mas algo que se é, e que se
desdobra sempre no entre: entre o nascimento e a morte, entre o que já foi e o
que ainda não veio. As tonalidades afetivas — como a angústia, temor, tédio —
não são emoções isoladas, mas formas de abertura, atmosferas em que o mundo se
deixa entrever. Não se trata mais de uma consciência transparente, mas de uma
clareira (Heidegger, 2017, p.41) onde algo pode se mostrar — ainda que de modo
velado, fugaz, insinuado. A identidade, nesse horizonte, se dá como resposta:
um modo de ser que se põe em risco diante do apelo do mundo.
Sartre (2015), em O ser e o nada, aborda com contundência a
inclinação humana de fixar uma identidade estável, como se fôssemos uma coisa —
algo que pudesse ser dito, definido, encerrado em si. Para ele, essa tentativa
é uma fuga da liberdade, pois o homem não é nada além daquilo que ele projeta
ser. Mesmo assim, o ser humano frequentemente busca tornar-se “em-si” — como uma cadeira — algo pleno, sem lacunas. É o
que ele chama de má-fé: o esforço de tornar-se um “em-si-para-si”, um paradoxo
no qual o ser humano deseja ser ao mesmo tempo consciência livre e objeto
determinado. Um garçom que se comporta como um garçom (Sartre, 2015, p. 108).
Sartre mostra como o projeto de ser uma identidade é, muitas vezes, um
movimento de negação da liberdade angustiante que nos constitui. Querer ser
algo definido é, nesse contexto, uma forma de negar o que nos constitui: uma
liberdade que se projeta, sem essência prévia. A identidade, para ele, não é
ponto de partida, mas efeito sempre provisório de um projeto.
Esse gesto se desdobra e ganha novos contornos quando nos aproximamos
das filosofias ameríndias, sobretudo na leitura de Eduardo Viveiros de Castro.
Em A inconstância da alma selvagem e Metafísicas canibais, ele propõe uma ontologia multinaturalista que desestabiliza a centralidade do
sujeito moderno e convida a abandonar pretensões universalistas (Viveiros de
Castro, 2017, 2018). Essa abordagem converge com o Manifesto Antropófago
de Oswald de Andrade (1928) — texto que, partindo do caldo modernista da Semana
de 1922, rompeu com seu nacionalismo ainda purista. A antropofagia, aqui, não
busca fundar uma identidade estática, ela devora o outro para recriá-lo,
assimila virtudes e descarta o que não presta — como salientam as metáforas de
xifópagos e deiródimos discutidas na Revista de
Antropofagia. Décadas depois, esse imaginário reapareceria na contracultura,
movimentos que fizeram da mistura — não da pureza — uma ferramenta crítica
contra dispositivos de normalização estética e política.
No campo artístico, a Tropicália protagonizou uma virada decisiva na
forma de pensar a cultura e a identidade no Brasil. Em vez de procurar raízes
fixas ou essências nacionais, o movimento encenou um gesto antropofágico
renovado: devorar referências diversas — da música popular à vanguarda europeia,
do existencialismo à tradição afro-indígena — para reinventá-las em novas
formas de expressão. Sob o peso da ditadura militar, essa experimentação não
era apenas estética, mas também política: um enfrentamento à censura, à moral e
às formas normativas de representação. Os heróis marginais dialogam, assim, com
o impulso inaugural da Semana de Arte Moderna de 1922, mas o leva adiante,
transfigurando-o. Jorge Mautner, por exemplo, teve um papel relevante ao
aproximar os músicos tropicalistas das filosofias da existência — sobretudo
Sartre e Heidegger —, cujas ideias de liberdade, invenção de si e engajamento
ecoaram na obra de Caetano (Veloso, 2017, p. 435).
Entre as leituras recentes de Heidegger, destaca-se a de Byung-Chul Han, em O coração
de Heidegger, que propõe uma abordagem sensível e rigorosa: o eu não é
centro, substância nem ponto de origem, mas invaginação
do exterior (Han, 2023, p.11) — um dobrar-se do mundo
sobre si, como quem escuta do côncavo uma afinação do convexo. O pensamento heideggeriano, segundo Han, é um
pensamento do coração, “encantado com a magia do mundo afinador, do
acontecimento apropriador afinador” (Han, 2023, p.
40). Essa operação, que ele chama de “circuncisão do coração”, retira o eu do
eixo da interioridade e o inicia na escuta do ser. A tonalidade afetiva não
seria um estado interno ou uma flechada desconcertante disparada pelo cupido,
mas uma abertura: afinação com o mundo que nos toma antes de qualquer escolha.
Ao deslocar a subjetividade para uma relação de sintonia com o que se dá, Han radicaliza a proposta heideggeriana
e contribui para esta abordagem com uma imagem delicada e potente: a identidade
não como construção, mas como escuta.
A fenomenologia, nesse gesto, não oferece um novo centro ou solo, mas um
recolhimento atento: escutar o que se dá antes de qualquer demanda por
identidade. “A dor surge da impossibilidade daquela identidade que aspira à
superação da diferença” (Han, 2023, p. 329). A dor é
do por, não do devido a: não é a diferença que faz sofrer, mas o esforço
violento de apagá-la, de sobrepor ao mundo a lógica do
mesmo. O sujeito que trabalha na identidade como retorno à interioridade,
assimilando tudo a si, é justamente aquele que se protege do atravessamento —
e, assim, se fecha à dor. Pensar a identidade como escuta é, portanto, deixar
de lutar contra o que se dá e começar a afinar-se com aquilo que toca no aí de
nós. Não se trata de explicar o outro, mas de sustentar sua presença — como
quem, enfim, se abre a escuta.
Conclusão
Em um cenário global marcado pela
aceleração, pela lógica neoliberal do desempenho e pela moralização das
diferenças, pensar a identidade como tons, deixando para o fundo a substância,
é também um gesto político. A fixação da diferença em formas previsíveis de
reconhecimento na clínica — seja por diagnósticos ou categorias identitárias — expõe um modo de operar que estreita o
viver, empobrece a escuta e reduz o outro ao que só pode ser nomeado. Este
trabalho propõe outro ritmo: sustentar uma escuta capaz de acolher o que ainda
não foi fixado, de resistir às pressões da captura e de se afinar com aquilo
que vibra nos interstícios. Ao tensionar as formas
contemporâneas de nomeação, a pesquisa se inscreve no campo ético da clínica,
mas também na crítica à colonialidade que insiste em
estabilizar os corpos, os modos de ser e os afetos. Diante de um mundo que
exige performance, clareza e identidade, escutar o que
hesita pode ser, ainda, um dos últimos gestos de cuidado.
Ser-tons, é o modo de
cruzar o ser-aí heideggeriano
com as tonalidades afetivas que nos tomam, em consonância com a paisagem do
sertão — contrapondo o sertão determinista de Euclides da Cunha ao de Guimarães
Rosa, que escapa, desvia e se reinventa em cada passo da travessia (Cunha,
1995; Rosa, 2001). Se as 2 obras foram fundamentais na
tentativa de definir uma identidade nacional, com Ser-tons os convido a
escutar o sertão que floresce entre ser e os tons que agora transbordam..........................................
Referências
bibliográficas
Adorno,
T. W. (2009). Filosofia da nova música (M. França, Trad.). Perspectiva.
Andrade,
C. D. de. (2002). Poesia completa. Nova
Aguilar.
Andrade,
M. de. (2008). Macunaíma: O herói sem nenhum caráter (Edição crítica de
T. P. A. Lopez). Agir.
Andrade,
O. de. (1928). Manifesto antropófago. Revista de
Antropofagia, 1(1), 3–7.
Castro,
E. V. de. (2017). A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de
antropologia. Ubu.
Castro,
E. V. de. (2018). Metafísicas canibais: Elementos para uma antropologia
pós-estrutural. Ubu.
Cunha,
E. da. (1995). Os sertões (37ª ed.). Francisco
Alves.
Deleuze,
G., & Guattari, F. (1995). Mil platôs:
Capitalismo e esquizofrenia (Vol. 1; A. Guerra Neto et
al., Trads.). Editora 34.
Feijoo, A. M. L. C. de. (2010). A
concepção do “eu”. Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial
(IFEN).
Feijoo, A. M. L. C. de. (2023a). A
escuta e a fala em psicoterapia: Uma proposta fenomenológico-existencial
(3ª ed. ampl. e rev.). Edições IFEN.
Feijoo, A. M. L. C. de. (2023b). Phenomenological-hermeneutic
method: From research in philosophy to psychology research. Paidéia (Ribeirão Preto), 33, e3337. https://doi.org/10.1590/1982-4327e3337
Ferreira,
A. A. L. (2013). O múltiplo surgimento da psicologia. In A. M. Jacó-Vilela, A.
A. L. Ferreira, & F. T. Portugal (Orgs.), História
da psicologia: Rumos e percursos (3ª ed., pp. 19–54). NAU.
Freud,
S. (1996). A psicologia dos processos oníricos. In S. Freud, A interpretação
dos sonhos (J. Salomão, Trad., pp. 493–611). Imago. (Trabalho original publicado
em 1900)
Freyre,
G. (2023). Casa-grande & senzala. Global.
Han, B.-C. (2017). A sociedade da
transparência. Vozes.
Han, B.-C. (2022). A expulsão do
outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje (L. Machado, Trad.). Vozes.
Han, B.-C. (2023). O coração de
Heidegger: Sobre o conceito de tonalidade afetiva em Martin Heidegger (R. R. Garcia & M. C. Mota, Trads.).
Vozes.
Heidegger,
M. (2012). Ser e tempo (R. E. Flinspach,
Trad.). Editora da Unicamp.
Heidegger,
M. (2017). Seminários de Zollikon (M. Boss, Org.; G. Arnhold & M.
F. A. Prado, Trads.; 3ª ed.
rev.). Escuta.
Holanda,
S. B. de. (2014). Raízes do Brasil (27ª ed.). Companhia das Letras.
Kierkegaard, S. (1979). O
desespero humano (A. C. Monteiro, Trad.; 6ª ed.). Livraria Tavares Martins.
Rocha,
J. C. de C. (Org.). (2003). Nenhum Brasil existe: Pequena enciclopédia. Topbooks.
Rosa,
J. G. (2001). Grande sertão: Veredas (19ª ed.). Nova Fronteira.
Sartre,
J.-P. (2015). O ser e o nada (P. Perdigão,
Trad.). Vozes.
Veloso,
C. (2017). Verdade tropical (3ª ed.). Companhia das Letras.
Curriculum
Mestrando em Psicologia Social
pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no Programa de
Pós-Graduação em Psicologia Social (PPGPS). Graduado em Psicologia pela UERJ,
desenvolve pesquisas sobre a temática da identidade em diálogo com a psicologia
clínica brasileira, com especial interesse no encontro entre clínica, filosofia
e cultura.
Correo
de contacto:
leafargarciavasconcelos@gmail.com
Fecha de entrega: 11/10/2025
Fecha de aceptación: 11/12/2025
Enlaces de Referencia
- Por el momento, no existen enlaces de referencia