Revista Latinoamericana de Psicoterapia Existencial. UN ENFOQUE COMPRENSIVO DEL SER. Año 17 - Nº 33 – Octubre 2026

Evidência empírica e evidência sensível:

reflexões para a clínica psicológica


Empirical evidence and sensory evidence:

reflections for clinical psychology


Myriam Moreira Protasio

Rio de Janeiro

IFEN. ALPE Brasil


El presente artículo fue presentado en el IV Congreso Mundial de Terapia Existencial, celebrado en la ciudad de Denver, Colorado, Estados Unidos.


Resumo

Em Psicologia, as práticas baseadas em evidências refletem um movimento mais amplo de verificação da eficácia e da efetividade dos métodos.  A busca pela verificação científica remonta ao início do século XIX, quando surgiram as ciências particulares — como a Física, a Biologia, a Ética e a Psicologia. Kierkegaard acompanhou as descobertas das ciências naturais e se perguntou pela possibilidade de uma ciência da existência, capaz de apreender o movimento da existência ou, mais precisamente, o movimento do indivíduo na existência. Ele utiliza narrativas existenciais nas quais os personagens são chamados a responder ao que lhes vem ao encontro, envolvendo-se com temas como angústia, desespero e repetição. Este artigo segue o método de Kierkegaard com foco no texto A Repetição e no diálogo entre Constantin Constantius e seu jovem amigo, explorando a tensão entre evidências empíricas e evidências sensíveis em Psicologia, refletindo sobre as implicações clínicas e epistemológicas dessa ciência existencial.

Palavras-chave

Søren Kierkegaard; ciência existencial; desespero; angústia; repetição.


Resumen

En Psicología, las prácticas basadas en evidencias reflejan un movimiento más amplio de verificación de la eficacia y la efectividad de los métodos. La búsqueda de la verificación científica se remonta a principios del siglo XIX, cuando surgieron las ciencias particulares —como la Física, la Biología, la Ética y la Psicología—. Kierkegaard acompañó los descubrimientos de las ciencias naturales y se interrogó sobre la posibilidad de una ciencia de la existencia, capaz de aprehender el movimiento de la existencia o, más precisamente, el movimiento del individuo en la existencia. Para ello, utiliza narrativas existenciales en las que los personajes son llamados a responder a lo que les sale al encuentro, involucrándose con temas como la angustia, el desespero y la repetición. Este artículo sigue el método de Kierkegaard, centrándose en el texto La Repetición y en el diálogo entre Constantin Constantius y su joven amigo, explorando la tensión entre evidencias empíricas y evidencias sensibles en Psicología, al tiempo que reflexiona sobre las implicaciones clínicas y epistemológicas de esta ciencia existencial.

Palabras clave

Søren Kierkegaard; ciencia existencial; desespero; angustia; repetición.

Abstract

In Psychology, evidence-based practices reflect a broader movement toward verifying the efficacy and effectiveness of methods. The pursuit of scientific verification dates back to the early 19th century, when specialized sciences—such as Physics, Biology, Ethics, and Psychology—emerged. Kierkegaard followed the discoveries of the natural sciences and questioned the possibility of a science of existence capable of grasping the movement of existence or, more precisely, the movement of the individual within existence. He utilizes existential narratives in which characters are called to respond to what encounters them, engaging with themes such as angst, despair, and repetition. Following Kierkegaard's method, this article focuses on the text Repetition and the dialogue between Constantin Constantius and his young friend, exploring the tension between empirical and sensitive evidence in Psychology, while reflecting on the clinical and epistemological implications of this existential science.

Keywords

Søren Kierkegaard; existential science; despair; anxiety; repetition.

A questão da evidência nas práticas em Psicologia tem relação direta com a atmosfera de nosso tempo, em seu afã de previsibilidade, antecipação e controle. As práticas baseadas em evidência consideram a evidência empírica a partir de um saber prévio já legitimado. Mas, seria a evidência empírica a única que emerge no fazer clínico? Pretendo tecer considerações sobre essa temática num diálogo com o pensamento de Soren Kierkegaard, por isso começarei citando um trecho retirado de um discurso edificante de 1843. Ele diz:

[...] a experiência é um amigo de duas línguas, que ora diz uma coisa e ora diz outra; e a conjectura é um orientador enganador, que nos larga quando mais dele necessitamos; e a hipótese é um olhar enevoado, que não avista muito longe; e a inferência é uma emboscada na qual mais depressa um homem se captura a si próprio do que outro alguém. Além disso, essas armas são mais difíceis de usar, pois com a conjectura vem o temor; com a hipótese vem a angústia; com a inferência vem a inquietação... [...] como deveríamos nós ir ao encontro do porvir? (Kierkegaard, 1843/2023, p. 48/49)


Espero poder responder à questão de Kierkegaard, que é também nossa, no decorrer de minha explanação. Primeiramente falarei sobre a relação de Kierkegaard com a tradição da Psicologia experimental. Em seguida dialogarei com um dos seus pseudônimos, Constantin Constantius que, por meio da comunicação indireta, responde sobre formas de experimentar a existência. Tentando trazer para mais perto de nós esta questão, refletirei sobre o lugar da empiria no contexto dos estudos sobre o envelhecimento. Por fim, retorno à questão sobre como deveríamos ir ao encontro do porvir e o que isso nos inspira na tarefa de acolher o que nos vem ao encontro na clínica. 



Kierkegaard na tradição da Psicologia Experimental 

O século XIX popularizou-se como o século das Ciências (Teixeira, 2021), momento em que as ciências vão se particularizando e ganhando autonomia em relação à Filosofia, e em que os métodos vão se transformando de racional a experimental. A Psicologia é mais uma ciência nascente nessa tensão entre um pensamento racional e conceitual, que reconstrói as experiências por meio de sistemas e estruturas explicativas – uma psicologia racional; e as investigações empíricas, presentes nos vários ramos científicos em seu movimento de dissecar a realidade em seus mínimos detalhes, uma psicologia experimental. Na esteira destas transformações surgem, no século XX, as denominadas Práticas Baseadas em Evidências (PBE), num movimento pela comprovação da eficácia e efetividade de métodos e práticas em psicologia. 

Historicamente, a PBE foi desenvolvida no campo da Medicina, em 1990 (conforme Guyart et al, 1992, citado por Leonardi & Meyer, 2015). Mas, em Psicologia, há registros de 1952, quando o psicólogo alemão Hans Eysenck, inserido já em um quadro diverso de práticas psicoterapêuticas, faz um levantamento de 19 estudos empíricos da psicoterapia dessa época com o objetivo de acompanhar a eficácia destas práticas. Eysenck observa que “a única medida de resultado disponível era o registro do terapeuta em termos de cura ou muita melhora, melhora, pouca melhora e nenhuma melhora, chegando à conclusão que a intervenção mais efetiva para a melhora do cliente era a “passagem do tempo” (p. 1141). A iniciativa de Eysenck marcou o interesse pela comprovação empírica de resultados alcançados pelos processos psicoterapêuticos, atraindo outras revisões de pesquisas realizadas nas décadas seguintes. O movimento pelas Práticas Psicológicas Baseadas em Evidências (PPBE) ganha expressão nos EUA, através da APA (American Psychological Association) como tentativa de elaborar um modelo representativo das diferentes perspectivas teóricas, metodológicas, conceituas e práticas (Leonardi & Meyer, 2015).

Apesar do interesse de Kierkegaard pelas descobertas das ciências naturais, facilitadas pelo desenvolvimento de instrumentos como o microscópio e o estetoscópio, ele desconfiará do excessivo entusiasmo por esta forma de desvendar a natureza. No entanto, ele jamais perderá de vista a possiblidade de pensar uma ciência da existência (Protasio, 2015). Por meio de suas obras, pseudonímicas ou não, o pensador dinamarquês tentará mostrar que o perigo está em que, ao se atentar excessivamente aos detalhes, se perca a capacidade de acompanhar a experiencia em seu próprio fluxo ou acontecimento. Em diversas obras, assim como em anotações de seus diários, ele deixará clara a importância da Psicologia como possibilidade científica de apreensão do movimento do existir, ou melhor, do movimento do existente em seu fluxo existencial. Para tornar visível as especificidades desta ciência, Kierkegaard construirá tramas existenciais, nas quais os personagens são desafiados a responder pelo que lhe vem ao encontro, assim como debates sobre temas eminentemente existenciais como, por exemplo, angústia e desespero. 

Sobre a temática do desespero, ele se pergunta, no prefácio da obra dedicada a este conceito (Kierkegaard, 2022), sobre a possível conciliação entre o rigor científico e a edificação, entendendo esta última como o movimento de apreensão e apropriação do existente em sua existência (transparência) e diante das exigências não apenas factuais, mas também transcendentes, de sentido, que são postas a cada existente. A questão de Kierkegaard em relação à nascente Psicologia é, então, como mostrar para seus contemporâneos os dilemas e limites da apreensão do espírito (o humano) pelo método empírico. Haveria uma realidade universal passível de ser captada exclusivamente pelo saber objetivo? Ou a realidade objetiva ganharia expressão apenas por meio do existente, ou seja, se evidenciaria na relação do indivíduo com o saber objetivo? Neste caso, a experiência humana não se constituiria como movimento, experimentação? Como, no campo mesmo da experimentação, fazer emergir os dilemas e limites, de modo a encontrar a experiência mesma?  As perguntas de Kierkegaard se inserem na tensão entre um saber empírico constituído a partir de experiências anteriores (as evidências) que se constituem em um saber objetivo e um conhecimento empírico sempre florescente, porque de caráter sensível. 

O caminho escolhido por Kierkegaard para esclarecer essas questões é o da comunicação indireta, com a construção multifacetada de textos cujo propósito é, justamente, possibilitar que surja, em meio à experiência de leitura e do envolvimento com a trama, questionamentos capazes de levantar suspeitas sobre as certezas do leitor. Com relação à psicologia experimental, especificamente, que crescia sob o entusiasmo de se explicar a totalidade do funcionamento humano por meio dos experimentos induzidos por métodos como a introspecção e a generalização, Kierkegaard produz um texto intitulado A repetição, um ensaio de psicologia experimental (Kierkegaard, 2009). O pseudônimo Constantin Constantius é, nessa trama, o conselheiro (o psicólogo) que tenta ajudar seu consultante a encontrar uma solução para seu sofrimento. Constantin aconselha seu consultante referenciado em experiências suas anteriores, acreditando na possibilidade de repetição como o igual. Ao nos envolver com a trama, suas questões passam a ser também nossas, apontando para a validade de um conhecimento adquirido na experiência sensível com o texto. Vou me deter mais neste ponto a seguir.


Comunicação indireta: Constantin e a possibilidade da repetição de experiências.

Vou sustentar o debate de Kierkegaard sobre a possibilidade de uma Ciência da Existência, seguindo suas próprias trilhas, ou seja, acompanhando personagens e tramas que dão voz aos conceitos. Tomarei como exemplo o conceito de repetição evidenciados na relação entre Constantin Constantius e um jovem apaixonado na obra A repetição, um ensaio de psicologia experimental (Kierkegaard, 2009). Acompanhando o esforço científico em seu movimento de trânsito entre a evidência empírica e a evidência sensível, convido o ouvinte a refletir sobre seus limites e possibilidades, e sobre as repercussões destas discussões para nosso próprio exercício clínico. 

Constantin, o narrador, sente-se convocado a ajudar um jovem apaixonado que, tendo se comprometido em um noivado, não consegue prosseguir sua vida. Uma tensão se insere em espírito do jovem: apesar de haver se apaixonado, descobre que a paixão o torna um poeta criativo – ele deleita-se na alegria da criação poética e teme que o casamento encerraria essa sua inspiração; tendo se entusiasmado e prometido casamento, não consegue romper o noivado por não querer magoar a moça. Noite e dia o jovem sofre e vive em função desse dilema, que lhe parece insolúvel. Constantin, seu interlocutor e conselheiro, compadece-se do jovem, quer tirá-lo dessa situação. Baseado na sua própria experiência passada, no conhecimento que acumulou sobre as questões do amor, Constantin imagina um método que tiraria o jovem dessa situação: basta que a moça desconfie que o jovem está se relacionando com outra moça que ela mesma romperá o noivado. 

A tensão, aqui, se mostra entre a crença em evidências empiricamente recolhidas (até pelo senso comum), que suportam uma expectativa de que a experiência se repetirá no presente, e a entrega à evidência sensível, só passível de ser recolhida na experiência mesma e a cada vez em que acontece. Constantin está convencido que seu método é eficaz e comprovado por experiências anteriores. Ele desenha articulações e ações que acredita serem perfeitas como solução para a situação, desde que o jovem cumpra os passos do método desenhado pelo conselheiro.

Mas, algo se evidencia quando o jovem não cumpre o projeto de Constantin, desaparecendo nas vésperas de começar a realizar o plano. O jovem, tempos depois, faz contato por carta com Constantin, contando que tentou seguir os conselhos, mas foi descobrindo que não era capaz de fazer as coisas conforme os planos do mestre e por isso decidiu afastar-se: o saber prévio de Constantin mais o confundia do que o ajudava. Ele chega mesmo a acusá-lo de ser uma influência demoníaca, uma vez que ele que não considerou, em seu plano, o sofrimento da moça. Embora já estivesse suficientemente confuso, diz o jovem, não conseguia sair de sua situação pelos exemplos e sugestões de segunda mão (os conselhos de Constantin). 

Aqui acontece algo que merece nossa atenção: quando o jovem desaparece, Constantin fica inconformado com a falência de seu método, e resolve entregar-se à repetição de experiências vividas por ele anteriormente, acreditando que assim poderá provar a validade da repetição na existência. Ele resolve refazer uma viagem a Berlim, esmerando-se, cuidadosamente, para que desta vez tudo se passe como na vez anterior, ou seja, tudo se repita.  É curioso observar seu esmero em antecipar, por meio da lembrança e do conhecimento acumulado, a experiência que virá em seguida. Curioso, também, é acompanhar sua frustração, quando a experiência o surpreende com novidades impossíveis de serem antecipadas – como o servo que desobedece a suas ordens, evidenciando os riscos da expectativa e das certezas na vida. Assim, em sua própria experiência, Constantin descobre a impossibilidade da repetição como igual e, ao mesmo tempo, reconhece que não consegue acolher outro tipo de repetição, não qual o mesmo (a vida) se repete renovada criativamente.  A vida é ela mesma criação, novidade, algo que lhe é insuportável, por isso ele diz preferir a rotina de sua casa. 

Com relação ao jovem, ele retoma contato com Constantin e relata o modo como descobriu que a repetição só é possível como criação. Mas para essa descoberta ele fez uma experiência diferente à de Constantin, trouxe consigo sua inquietação, que sustentou diariamente em busca da saída. Ele relata que foi preciso entregar-se à sua melancolia e sua vontade de sair do impasse. O jovem descobriu que o que se repetia era o interesse, a escuta às orientações e exigências que emergiam, a cada vez: ora esclarecendo por que fora tão difícil seguir os conselhos de Constantin (era insuportável pensar em fazer a sua jovem noiva sofrer); ora ouvindo seu arrependimento pela promessa assumida em um ímpeto apaixonado; ora alegrando-se com o êxtase vivido em sua verve poética. Nesse constante movimento do pensamento ele encontra um interlocutor/ouvinte que o ajuda a vislumbrar sua saída para situação, ou melhor, a edificar-se em sua situação. O jovem acompanha os dilemas e dores do livro bíblico de Jó, lendo e relendo sua trama, admirando-se com a força de Jó em permanecer na fé e à escuta de uma resposta. Assiste Jó a ouvir os amigos, confundir-se com eles, e aguardar o momento em que tudo se acalma: Jó apreende seu limite na situação e acolhe a gratuidade de seu destino, reconciliando-se com os amigos e com a vida. E o jovem? Descobre que também precisa se entregar à sua tarefa e, depois de ter pensado em suicidar-se, decide voltar para a cidade e casar-se com a moça. Decide-se a perder tudo (sua veia poética), como Jó perdeu, para ter paz ao cumprir seu compromisso.  

Ao final da leitura, saímos incrédulos sobre a possibilidade de repetição de um experimento, ou seja, de que duas experiências possam ser iguais; e, ao mesmo tempo, saímos confiantes de que a experiência é o campo próprio da repetição do mesmo, não igual, mas renovado, assim como é o espaço para o conhecimento e apreensão da realidade. E como tudo isso pode nos ajudar a pensar a tensão entre as diferentes formas de evidência numa prática que se pretende baseada em evidências? Tentarei responder a esta questão sem seguida.


Evidência empírica e evidência sensível nos estudos sobre o envelhecimento

Dado que a temática central na busca por evidências é buscar, da forma mais fidedigna possível, a experiência, temos a tensão entre a apreensão da realidade empírica, recolhida por meio do conhecimento prévio acumulado; e uma possibilidade de apreensão da realidade pautada na experiência em seu próprio desenrolar, uma evidência sensível. Vou me demorar um pouco mais nessa questão, dialogando com uma questão que muito me tem interessado: o modo como os fenômenos do envelhecimento e do envelhecer surgem no contemporâneo. 

A evidência empírica se constitui a partir de pesquisas e artigos já publicados, buscando mapear e orientar compreensões e práticas em campos específicos. No campo dos estudos sobre o envelhecimento, por exemplo, isso se reflete no volume cada vez mais crescente de publicações que dizem muito sobre a velhice, os idosos e seus cuidadores etc.  Em um artigo assinado por Beltrina Côrte e Vera Brandão (2018), as autoras trazem o discurso de pessoas que se encontram na chamada longevidade avançada, ou seja, de pessoas que estão vivas há mais de 80 anos. As pesquisadoras alertam que “As pesquisas constroem, com base nas evidências, parâmetros e limites sobre o que se considera como longevidade avançada e fragilidade, o que não coincide, muitas vezes, com a percepção subjetiva dos idosos, que traçam os limites, que se apresentam de modo diferente, segundo a percepção que têm de si próprios, como indicam os narradores” (Côrte, Beltrina; Brandão, Vera, 2018, p. 224). Ou seja, as pesquisas trazem elementos sobre o envelhecer, mas os sentidos dessa experiência aparecem de modo diferente no discurso dos longevos.

Concordando com as autoras, percebemos que os artigos sobre idosos tendem a realçar as restrições físico-funcionais impostas pelo fato de um humano ter vivido muitos anos. Mas, assistindo a um documentário estreado em maio de 2024, na TVE do Brasil, braço da Bahia, intitulado Seculares, no mundo há mais de cem,  o que aparece é outra coisa. O documentário acompanha um grupo de pessoas que estão vivas há mais de cem anos, e vai mostrando esse grupo de pessoas não pela perspectiva de suas restrições, mas de suas ações cotidianas - não é o que lhes falta que ganha relevo, mas sua vitalidade, seu cotidiano, seus afetos. Ainda que a produção de conhecimento sobre o que acontece com o corpo que envelhece sustente formas de cuidado, o envelhecimento e, principalmente, o saber sobre aquele que envelhece podem se apequenar, quando pensados apenas pela perspectiva das perdas biológicas e até mesmo das limitações sociais, ou seja, estes saberes não são capazes de abarcar a singularidade da experiência. Ao ampliar os discursos sobre a velhice para além da descrição das doenças e restrições, o envelhecimento e o envelhecer tomados como uma condição inevitável de perdas desaparece para que apareçam as pessoas em seus afetos, afazeres, sonhos, empenhos... 

Não apenas são necessárias diversas ciências para dar conta das inúmeras questões que a realidade da vida cada vez mais longeva apresenta, é preciso também lembrar que todas as ciências juntas ainda não poderão responder definitivamente pelas questões singulares. Aí podemos recorrer à sugestão de Kierkegaard (2013), que diz que é preciso aprender a recolher os saberes que emergem da realidade vivida, mas é preciso refletir que estes saberes, ainda que se constituam como evidências empíricas, como saberes legitimados, são apenas um aceno para a realidade enquanto acontecimento. É preciso ir à realidade e colher o que aí floresce.

Kierkegaard (2013), sob o pseudônimo “A”, ainda alerta que mesmo sem ter conhecimento prévio e sem precisar penetrar no objeto de investigação, é possível colher sua significação ao percorrer seus contornos, ao olhar para o que o contorno contém. E que, nesse gesto, o pesquisador está margeando a realidade, guiado pelo que conhece (as evidências empíricas legitimadas) e olhando demoradamente, infatigavelmente, para o que não conhece, deixando-se surpreender com o novo. Ou seja, sem desmerecer o conhecimento prévio, é possível encontrar consolo no “paradoxo que consiste em também se conseguir obter uma espécie de experiência no pressentimento e no desconhecimento” (Kierkegaard, 2013, p. 102).


A título de finalização: considerações para a clínica psicológica

Fazer Psicologia, Kierkegaard dirá numa anotação de seus diários, é interessar-se por aquilo que interessa o indivíduo. Isso aponta para o limite entre o conhecimento prévio adquirido e a realidade ao modo como ela se apresenta. Para interessar-se pelo que interessa ao outro é preciso captar as evidências empíricas, previamente dadas ou não, mas não se satisfazer com elas, mantendo uma disposição de abertura para colher também as evidências sensíveis, ou seja, aquelas que emergem no fluxo mesmo do acontecimento, evidenciando o que acontece ali, pois isso que se mostra acena diretamente para aquilo que, efetivamente, importa naquela situação. Mas, como o mostrar-se é também um esconder-se, é preciso disponibilidade/paciência para acompanhar aquilo que só se deixa ver no decurso do tempo do seu acontecer. É preciso estar atento para não privilegiar o já dado e deixar de acolher o que está se dando no seu aceno ao porvir, à possibilidade. Estar aberto ao sensível é abrir-se ao fluxo do acontecer.

No primeiro dos dois discursos edificantes de 1843, intitulado A expectativa da fé, Kierkegaard (2023) pensa o combate do homem com a indeterminação (o porvir) próprio da existência. Ele alerta para os riscos dessa preferência pelo saber já estabelecido, e diz: “os mais velhos e os mais novos, todos nós, deveras que já temos toda a experiência, iremos envergá-las, seguiremos as pistas da hipótese e as orientações da conjectura; com o poder das inferências iremos vencê-lo; e, assim, armados, vamos ao encontro do porvir.” (p. 48). 

Nos estudos sobre o envelhecimento, citados acima, os autores ressaltam a importância de ouvir o que as pessoas mais velhas têm a dizer sobre suas experiências. Considerando que a experiência, como diz Kierkegaard, diz muitas coisas, é preciso cuidar para não apelar para conjecturas, hipóteses ou inferências pois estas, além de trazer consigo disposições como temor, angústia e inquietação frente aos vários cenários que podemos antecipar, pode nos afastar do que está acontecendo e, afastado, ficamos sem referências quando mais necessitamos de um solo seguro para o cuidado da experiência. 

Retomo aqui a questão deixada no trecho que citei no início da minha fala: “Como deveríamos nós ir ao encontro do porvir?  [...] por que meio se vence a variável?”.  Kierkegaard responde: “por meio do eterno. Ora, qual é o poder eterno no homem: É a fé”. (Kierkegaard, 1843/2023, p. 49). Com isso, ele conclui que a abertura livre para o desconhecido é, já, a vitória, e “uma vitória não causa perturbação”, ao contrário, nos fortalece para a lida com o que acontece no presente. (Kierkegaard, 1843/2023, p. 49 e 50). Kierkegaard ressalta que a fé - a entrega ao que acontece e a disponibilidade para o novo, não espera muitas vitórias, espera a vitória, qual seja, vencer a questão, e por isso tem alegria e bom ânimo. Trata-se de uma disposição para a abertura, e não de uma disposição para a certeza ou de controle. 

Para finalizar essa pequena apresentação reflito que, não se trata de uma lida iludida com a realidade, pois sei que mesmo que quiséssemos, não somos capazes de nos despir de tudo o que sabemos ou experimentamos e que somos constituídos com o espírito técnico científico de nosso tempo.  Nós também somos atravessados pela crença nas evidências empíricas e podemos nos iludir pensando que elas são suficientes para apreendermos a realidade. Por isso é que é importante entender o trânsito entre as diferentes formas do evidenciar, ter presente que a evidência empírica, colhida a partir de experiências anteriores, se constitui num recorte e numa perspectiva específica, sempre parcial. É importante estar aberto para considerar outras perspectivas. E, principalmente, para acolher a evidência sensível e tomá-la como orientadora para os caminhos percorridos na relação clínica [para o porvir]. Essa disposição para o sensível torna a psicoterapia um caminho profícuo, capaz de nos manter informados sobre a produção científica colhida das experiências anteriores, mas também livres para correspondermos, a cada caso, a cada vez, ao que se evidencia. Tal disposição pode proteger da dispersão em saberes prévios que, tendo seu lugar enquanto preparação do psicoterapeuta, devem ser dispensados em prol da experiência viva, do acontecimento mesmo no momento mesmo em que acontece.



Referências bibliográficas

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Leonardi, J. L. & Meyer, S. B.  (2015). Prática Baseada em Evidências em Psicologia e a História da Busca pelas Provas Empíricas da Eficácia das Psicoterapias. Em Psicologia Ciência e Profissão, 2015, 35(4), pp. 1139-1156. Doi: https://doi.org/10.1590/1982-3703001552014 . Disponível em https://www.scielo.br/j/pcp/a/7kfdXmcqnXkY7gtKnhX5VZS/?lang=pt

Protasio, M. M. (2015). O si mesmo e as personificações da existência finita: rumo a uma ciência existencial. Rio de Janeiro: Edições IFEN

Kierkegaard, S. A. (1849/2022). A doença para a morte. (Ross, J. Trad.) Petrópolis, RJ: Editora Vozes.

Kierkegaard, S. A. (1843/2009). A repetição (Justo, J. M., Tradução e notas). Lisboa: Relógio D’Água. 

Kierkegaard, S. A. (1843/2013). Ou-Ou um fragmento de vida – parte 1. (Sousa, E. M. de, Tradução e notas). Lisboa: Relógio D’Água. 

Kierkegaard, S. A. (1843/2023). Dezoito discursos edificantes. (Sousa, E. M. de Tradução e notas). Lisboa: Relógio D’Água. 

TVE do Brasil (2024) Seculares, o mundo  há mais de cem. Disponivel em https://dorispinheiro.com.br/serie-destaca-pessoas-com-mais-de-100-anos-na-tve/



Curriculum

Psicóloga. Doutora em Filosofia pela UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e Pós-Doutorado em Psicologia na mesma universidade. Sócia Fundadora do Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro (IFEN) onde é professora, supervisora e coordenadora da Especialização em Psicologia Clínica Constantemente referida a Kierkegaard e do grupo de pesquisa O envelhecimento e o envelhecer na atualidade e a atuação do psicólogo. Pesquisadora LAFEPE/UERJ. 

Lattes: http://lattes.cnpq.br/0910561871917401

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2156-9269



Correo de contacto: myprotasio@yahoo.com.br 

Fecha de entrega: 15/6/2026

Fecha de aceptación: 2/7/2026


Enlaces de Referencia

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