Revista Latinoamericana de Psicoterapia Existencial. UN ENFOQUE COMPRENSIVO DEL SER. Ao 16 - N 32 Abril 2026

 

Seccin Aportes Originales

 

Atitude fenomenolgica e a clnica psicolgica em situaes de ansiedade

 

Phenomelogical attitude and the psychological clinic in anxiety situations

 

Antnio Austrio

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

Universidade Estatal de Ro de Janeiro, Ifen

 


 

 

Resumo

Neste trabalho, nos propomos investigar as contribuies da fenomenologia-hermenutica para uma compreenso mais ampla sobre a experincia de ansiedade. Para tanto, utilizamos os trs momentos da investigao fenomenolgica-hermenutica; destruio, por meio de uma atitude fenomenolgica, questionamos as verdades postas sobre a ansiedade pelos modelos descritivos e explicativos; por fim, discutimos a construo em que se visa compreender hermeneuticamente o comportamento do homem na atualidade, que se mostra por meio da ansiedade como um modo de expresso da angstia.  Por esse caminho, alcanamos a experincia da ansiedade como possvel expresso do ser em um mundo que requer pressa, controle e produo incessante. Com esse modo de compreenso da experincia da ansiedade, apontamos para uma postura psicoteraputica que, ressaltando a existncia, ganha outros contornos para alm da explicao e do tratamento da ansiedade como algo da ordem biofsica e qumica.

 

Palavras-chave

Transtorno de Ansiedade. Angstia. Fenomenologia-hermenutica. Impessoalidade. Singularidade.

 

Abstract

In this work, we propose investigating the contributions of phenomenology-hermeneutics for a broader understanding of the experience of anxiety. For this reason, we use the three moments of phenomenological-hermeneutic research: reconstruction through a literature review; destruction, by means of a phenomenological attitude, we question the real truths about anxiety descriptive and explanatory models. Finally, we discuss the construction in which it is

 

 

intended to hermeneutically understand the behavior of men in today's world, which is shown through anxiety as a mode of expression

of anguish. Through this path, we reach the experience of anxiety as a possible expression of being in a world that requires pressure, control and incessant production. With this way of understanding the experience of anxiety, we aim for a psychotherapeutic position that, highlights its existence, gains other contours to further explain and treat anxiety as something of the biophysical and chemical order.

 

Keywords

Anxiety Disorder. Distress. Phenomenology -hermeneutics. Impersonality. Singularity.

 

Introduo

Tendo-se a ansiedade como roupa apertada, desconfortvel, mas como vestimenta usual desse estado que afeta o homem na sociedade contempornea, antes classificada pela Organizao Mundial da Sade como transtorno mental comum e tratada, muitas vezes, apenas pelos sinais e sintomas ou por entendimentos causalistas e explicativos, este trabalho prope-se a investigar as contribuies da fenomenologia-hermenutica na compreenso da ansiedade por meio da disposio afetiva da angstia. 

A ansiedade, como crise existencial, interpretada pelas cincias naturais em um diagnstico inerente ao corpo biolgico. Colocamos em questo essa interpretao hegemnica, posto que tal fenmeno pode ser compreendido por outras vias, como, por exemplo, pela hermenutica da existncia, posto que esse ser que se mostra ao modo do ente constitui-se como ser-no-mundo em um horizonte histrico-temporalmente constitudo.

Nas palavras de Pinto (2017), a ansiedade marca nossa poca e se mistura vida cotidiana e cultura por meio da revoluo tecnolgica, do aumento no fluxo de informaes, da pressa, da rotina acelerada de um mundo que se esqueceu da possibilidade de contemplao. Vivemos  em uma sociedade marcada pela valorizao da produtividade em que todos os dias aparecem mais e mais influenciadores sociais dizendo-nos o que e o como fazer na vida, tornando-se mestres de desavisados, aplaudindo a estagnao da curiosidade intelectual, desviando os propsitos da procura mais singular, ofertando concluses apressadas, esvaziando ainda mais o pouco autoconhecimento disponvel, dispersando o pseudoconhecimento multitudinrio, levando o indivduo, como diz a linguagem popular, a um copia e cola.

A vida, pois, enquanto movimento, compe-se de experincias que produziro sempre o novo em um encantamento pela novidade. Na medida em que nos fascina, tambm nos amedronta. Trata-se daquilo que Kierkegaard (1843/2010) denomina angstia, e exemplifica esse afetar-se como um menino que, vendo um filme de terror, abre um olho e fecha o outro. Arriscamos dizer que, no af de tudo querer, antecipar e controlar, as possibilidades que se abrem pela tonalidade da angstia podem ser experimentadas como ansiedade. Ansiedade diz respeito a se colocar na expectativa dos acontecimentos e, quando vivida de forma exacerbada, pode se mostrar como restrio. A possibilidade do novo torna-se ameaadora e a ansiedade manifesta-se como resistncia ao acontecimento do inesperado. Se por um lado a ansiedade lana o homem ao enfrentar e arriscar, possibilitando transmutar diante de uma nova experincia, por outro, pode lev-lo a se retrair e se inibir frente ao contato com o meio que demanda. E, assim, a excitao a ser direcionada para enfrentar o conflito muitas vezes inibida, passando a se manifestar no corpo em forma de sintoma (Belmino, 2020).

Pela prevalncia e decorrente relevncia, o tema ansiedade est sempre em pesquisa e discusso e, nesse sentido, citamos como exemplo um resumo cientfico de maro de 2022, constatando um aumento mundial, em 2020, de 25.6% de casos de transtornos de ansiedade, acometendo mais mulheres do que homens, assim como jovens, principalmente entre 20 e 24 anos, resultante dos altos estados de estresse causado pelo isolamento social e outros fatores relacionados pandemia (World Health Organization, 2022). Ainda para a OMS, o Brasil o pas com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo. Tais dados mostram que os transtornos ansiosos tm uma demanda clnica crescente e uma alta prioridade para a psicoterapia. Assim, busquemos maior compreenso alm dos limites do pensamento dominante que incorpora entendimentos puramente causalistas e explicativos, enfatizando a observao da sintomatologia da ansiedade, utilizando, majoritariamente, instrumentos de avaliao na identificao da prevalncia dos sintomas, na predominncia do vis biomdico, preconizando a cura e a eliminao dos sintomas (Faria, 2017).

Tais eventualidades nos suscitam a seguinte pergunta: de que maneira o trato clnico, luz da atitude fenomenolgica e da disposio da angstia, pode compreender a experincia da ansiedade? Seguindo o objetivo deste estudo, que demonstrar as contribuies da atitude fenomenolgica e a considerao da disposio da angstia para a compreenso da ansiedade, vamos, primeiramente, caracterizar a ansiedade normativa decorrente da interpretao cientfico natural para, depois, apreciar a atitude fenomenolgica como reflexo sobre o fenmeno e, nesse caminho, descrever a ansiedade em uma perspectiva existencial como possvel decorrncia das experincias da angstia. A partir de ento, vamos refletir sobre a possvel contribuio desse modo de compreender o fenmeno para a psicologia clnica.

Temos como hipteses: 1. que o indivduo - atravessado pelos muitos convites, pelo excesso de chamados a responder - cria expectativas de situaes das quais ele no tem controle; 2. que essa apreenso frente s expectativas se expresse por meio dos sintomas da ansiedade ao ser diagnosticada a partir de sinais e sintomas, por uma explicao causal, reduzida ao orgnico, obscurecendo uma compreenso pela via da experincia e do sentido que diga respeito possibilidade de controle e antecipao das coisas. Acredita-se, ainda, que, a atitude que o psicoterapeuta vai assumir decorre do entendimento que ele tem sobre o fenmeno da ansiedade. Sem imposio de saberes nem julgamentos apriorsticos, o psicoterapeuta que atua a partir da existncia tende a reconhecer o modo como cada existente articula sentido. Por meio da comunicao indireta, o clnico cria condies para que o vnculo se estabelea, sustentando um contexto que facilite ao paciente o desvelar de suas inquietaes para outras possibilidades de se relacionar com aquilo que lhe ocorre.

O presente estudo, em uma perspectiva de reconstruo, realizou uma reviso narrativa da literatura, examinando artigos, livros, dissertaes, teses, dentre os suportes de fundamentao terica que puderam nortear o trabalho.

 

Reconstruo:

a ansiedade em uma perspectiva biolgica e social
Nessa etapa da reconstruo, por meio de uma reviso narrativa da literatura, buscamos materiais nas plataformas SciELO, PePSIC, Google Acadmico, LILACS, em livros e dissertaes, com os seguintes descritores: ansiedade-angstia; doenas mentais-ansiedade, fenomenologia-hermenutica-ansiedade. Como literatura primria, utilizamos Ser e tempo, de autoria de Martin Heidegger, e os cdigos de doenas mentais. Na literatura secundria, recorremos a artigos, teses e dissertaes.

Os artigos consultados apontam para o fato de que, nas ltimas dcadas, a prevalncia de diagnsticos de transtornos de ansiedade em adultos aumentou, e tem se tornado um assunto que gera preocupao e, por isso, necessrio se faz que tenhamos mais conhecimento sobre o tema. Embora, s vezes, sendo considerados sinnimos, convm esclarecer que o medo ocorre quando existe um estmulo desencadeador externo bvio, j a ansiedade o estado emocional aversivo sem desencadeadores claros que no podem ser evitados. A ansiedade pode se expressar por meio da tristeza, da vergonha e da culpa ou, ainda, por clera, curiosidade, interesse ou excitao (Baptista et al., 2005). Na ansiedade, aquele que tomado por essa tonalidade afetiva no consegue se afastar da situao temida, como ocorre com o medo, pois a ansiedade aparece quando a totalidade de existncia humana e seus valores so ameaados (May, 1950).

De acordo com o Dicionrio Houaiss, a ansiedade um estado afetivo penoso, caracterizado pela expectativa de algum perigo que se revela indeterminado e impreciso e diante do qual o indivduo julga-se indefeso e, ainda, com grande mal-estar psquico, aflio, agonia, desejo veemente e impaciente, falta de tranquilidade e receio. A maneira prtica de diferenciar ansiedade normal de ansiedade patolgica, assinalam Castillo et al. (2000), basicamente avaliar se a reao ansiosa de curta durao, autolimitada e relacionada ao estmulo do momento ou no. Os aspectos clnicos, epidemiolgicos, psicolgicos e biolgicos da ansiedade patolgica, provvel distrbio psiquitrico mais comum, tm sido investigados por inmeros autores. Para a American Psychiatric Association (APA, 2014), a elevao dos nveis de ansiedade tambm pode ser provocada pelos efeitos de alguma substncia txica ou de algum estado fsico geral, e no ocorrem exclusivamente durante uma perturbao do humor.

Como aponta o DSM-V (APA, 2014), os transtornos de ansiedade costumam apresentar caractersticas de medo e ansiedade em excesso, alm de perturbaes comportamentais relacionadas, um alto nvel de ansiedade, porm o temor de estar doente no acompanhado por sintomas somticos. Na CID temos como classificao e caractersticas: CID F41.1 - Ansiedade generalizada - caracterizada por medo ou preocupao excessiva persistente. Tal condio no ocorre exclusivamente nem mesmo de modo preferencial em uma situao determinada (DATASUS, 2021, n.p.).

Um relatrio da Organizao Mundial da Sade (OMS, 2017) cita que, em 2015, da populao global, 264 milhes de pessoas sofriam com algum tipo de transtorno de ansiedade, representando um crescimento de 14,9% em relao aos dados de 2005, considerando-se o crescimento e envelhecimento da populao (OMS, 2017, traduo nossa)[1]. Existe um resumo cientfico bem mais recente, de maro de 2022, constatando um aumento mundial, em 2020, de 25.6% em casos de transtornos de ansiedade, acometendo mais mulheres do que homens, assim como jovens, principalmente entre 20 e 24 anos, resultante dos altos estados de estresse causado pelo isolamento social e outros fatores relacionados pandemia (World Health Organization, 2022, traduo nossa)[2]. Como vimos, por vezes, a caracterizao da ansiedade pode estar apontada para a ansiedade patolgica, como doena mental, circunscrita aos critrios diagnsticos a serem, com rigor, seguidos, como tambm, outras vezes, voltada ansiedade normal, primria, em seu papel funcional de enfrentamento das vivncias de mundo. Assim, cabe-nos imaginar seu tratamento via psiquiatria, na qual os critrios diagnsticos so avaliados e corrigidos os desajustes dos sistemas gabargico, serotonrgico, dopaminrgico, neuropeptidrgico, entre outros ou, ainda, via psicoterapia.

A psicopatologia a rea da cincia voltada aos estudos das causas, mudanas estruturais, funcionais e manifestaes da doena mental. Na psicopatologia, as definies bsicas dos transtornos mentais so formuladas e tomadas de forma arbitrria, com fins de potencializar sua utilidade pragmtica na clnica e na pesquisa (Dalgalarrondo, 2008). Conforme Rocha Neto e Messas (2016), no modelo criteriolgico operacional da psicopatologia, a estrutura a matriz fundamental da conscincia do indivduo e portadora de todas as suas condies de possibilidades existenciais. Sua modificao tpica, por meio da sua transformao imobilizadora ou aquisio de essncias anmalas, o que caracteriza a doena. Na psicopatologia operacional, ou modelo criteriolgico de Kraus (1994 citado por Rocha Neto & Messas, 2016), no se questionam os fundamentos filosficos, antropolgicos ou a natureza da doena mental. Com isso, as doenas passaram a ser definidas por critrios especficos, previamente definidos, a serem preenchidos para o diagnstico que atribudo quando o paciente apresenta um nmero mnimo de sinais e sintomas, de acordo com a World Health Organization (1992). Em consonncia, Pinto (2021) diz que preciso notar que, ainda que sejam referenciais para orientar os profissionais em suas compreenses diagnsticas, as definies do DSM so boas descries de comportamentos, mas pouco ou praticamente nada falam da vivncia da ansiedade pelas pessoas. Ainda nas palavras de Andreasen (2007 citado por Rocha Neto & Messas, 2016), a prtica psiquitrica, guiada pelos critrios operacionais do DSM e, posteriormente, pela Classificao Internacional de Doenas (CID), causou significativo empobrecimento na capacidade diagnstica e de observao dos praticantes de psicopatologia. Os manuais orientam para o controle ou a extirpao da ansiedade, nunca para o dilogo. Podemos imaginar a necessidade do balizamento cientfico para o enquadramento de um diagnstico, especialmente de uma doena mental, como se caracteriza a ansiedade patolgica. Podemos imaginar o caos que seria sem esses critrios definidos como a interpretao de cada profissional em sua manifestao de verdade, mas o que pode depreender o examinador, alm critrios diagnsticos pr-determinados?

Rocha Neto e Messas (2016) nos esclarecem que a entrevista estruturada no garante que as perguntas certas sero feitas nem que o examinador perceber alteraes subjetivas presentes nos pacientes examinados. Com isso, os construtos diagnsticos tornam-se mais simples, mas extremamente frgeis, uma vez que no descrevem adequadamente o quadro nosolgico que devem representar. O equilbrio deve ser, sempre, o mediador do encaminhamento. O enclausuramento fecha portas, mas o arejamento fundamental para a compreenso. Quando existe um engessamento dessa concepo, o enquadramento do manual estabelecido com nfase apenas nas categorias diagnsticas, a subjetividade e as manifestaes particulares de cada indivduo so desconsideradas em prol de uma definio patolgica que valide o tratamento mais rpido e efetivo (Brando, 2017). Dessa forma, ao nos limitarmos somente a uma concepo biolgica da ansiedade, produz-se uma viso patologizante que negligencia a experincia subjetiva e as sensaes e sentimentos experienciados de maneira singular pela pessoa (Pinto, 2021).

Vivemos em uma sociedade ps-moderna na qual, todos os dias, aparecem mais e mais influenciadores sociais dizendo o que e como fazer na vida, tornando-se mestres de desavisados, desviando os propsitos da procura mais singular, ofertando concluses apressadas, esvaziando ainda mais o pouco autoconhecimento disponvel, levando o indivduo a um copia e cola. A vida, pois, como movimento, a nica lucidez para quem busca aprender, e essa interao, essas vivncias, produziro o novo. Este, medida que nos fascina, tambm nos amedronta e pode tambm gerar ansiedade. A possibilidade do novo torna-se ameaadora e a ansiedade manifesta-se como resistncia ao conflito, a excitao que deveria ser direcionada para enfrentar o conflito inibida e passa a se manifestar no corpo em forma de sintoma (Belmino, 2020).

O que pode parecer uma soluo apressada? Discute-se a a patologizao e a medicalizao. Ora, em uma sociedade que busca suprimir o conflito (Belmino, 2020), a ansiedade vista como uma doena, um agente patolgico que deve ser eliminado da experincia, logo, criam-se mecanismos (terapias especficas, medicamentos) que permitam a sua eliminao e, por fim, o foco torna-se a ansiedade e no o que a gerou, deixando-se de lado o conflito e a novidade. Temos, at ento, viajado pelos mais diferentes pensamentos de muitos autores a respeito da manifestao e classificao da ansiedade ou da angstia. Verifiquemos, pois, o que pensam esses profissionais a respeito de seu tratamento pela perspectiva hermenutica do pensamento fenomenolgico existencial.

Segundo Wulff et al. (1995 citado por Caprara, 2003), a anlise hermenutica um processo inicial indispensvel porque no tem sentido um estudo emprico das propriedades de uma pessoa sem se ter analisado o conceito de pessoa. Por essa razo, a cincia natural subordinada reflexo hermenutica.

 

Desconstruo:

o que Heidegger tem a nos dizer.

Na literatura primria, buscamos Ser e tempo, de Heidegger e seus comentadores. Feijoo (2011), referindo-se ao modo de pensar a noo de sujeito por Heidegger, destaca que esse filsofo inaugura uma outra possibilidade de analisar o existente, que ele denominara Dasein. Nessa compreenso, o sujeito no mais visto em uma polaridade com o mundo na qual, em uma unidade indissocivel, o Dasein compreendido como um campo existencial de sentido e significados compartilhados e assentados na temporalidade (Heidegger, 1927/2013). Para abordar o tema da ansiedade na perspectiva da ontologia fundamental desenvolvida por Heidegger, vamos primeiramente apresentar a disposio afetiva da angstia que, em sua indeterminao originria, abre novas possibilidades, portanto, a imprevisibilidade do que est por vir, ou seja, a oportunidade da apreenso e da ansiedade.

Dasein, para Heidegger, aponta para a no polarizao sujeito e objeto, proposta por Descartes, defendendo a unicidade como a essncia do ser humano numa perspectiva existencial. O Dasein no simplesmente um ente entre outros entes, mas ele se distingue dos demais pelo seu privilgio de ser o ente que pode pensar sobre si mesmo, pelo fato de, em seu ser, isto , sendo, estar em jogo seu prprio ser (Heidegger, 1927/2015, p. 38). Assim, podemos imaginar que o Dasein, como ser-no-mundo, carrega o carter de poder-ser. Em seu carter de abertura, Dasein sempre um modo de estar lanado diante das possibilidades da existncia, visto que "existir j sempre se ver jogado em modos fticos de ser (Casanova, 2015, p. 92). Como ser-no-mundo, esse homem acompanha o leito caudaloso das guas da histria, em contato com afetos de relao de sentido.

Casanova (2017) esclarece que o Dasein se mostra, pelo ser-no-mundo, onde nos encontramos em relao aos outros (ser-com) e com as coisas (ser-em), nas experincias mundanas que incorporamos. O ser-no-mundo implica, segundo Penha (1982), a relao do Dasein com outros Dasein, que coexistem com eles, em seu carter de ser-com (mit-Sein). O existir humano no pode ser considerado algo simplesmente presente e encerrado em si; "ao contrrio, esse existir consiste em meras possibilidades de apreenso que apontam ao que lhe fala e o encontra e que no podem ser apreendidas pela viso e pelo tato" (Heidegger, 2017, p. 33), de onde se depreende que esse homem se constitui o tempo todo pela indeterminao e finitude.

O Dasein, na vida cotidiana, diz Penha (1982), mergulha em uma espcie de anonimato que anula a singularidade de sua existncia. Perde-se no meio dos outros Dasein, buscando a justificativa e o apoio de seus atos no impessoal. A experincia cotidiana do Dasein transcorre dessa forma, na impessoalidade, o das man torna-se massa, alheia-se de si mesma.

Sobre o ntico e o ontolgico convm esclarecer que Heidegger nomina essas dimenses do Dasein como existenciria para esta e existencial para aquela. Por existencial (ntico) entende-se a compreenso que Dasein tem da sua existncia enquanto ente; da compreenso do ser enquanto o temporal e espacialmente no mundo. J por existencirio (ontolgico) entende-se a dimenso que se refere s estruturas que constituem essa existncia e que so comuns a todo Dasein (P, 2015). Heidegger (2005) lembra que a analtica do Dasein no tem o carter de um entendimento existencial, mas existencirio, no entanto, a analtica existenciria , em ltima instncia, existencial, isto , tem razes nticas. Entendemos da que, ser-no-mundo condio sine qua non para o poder-ser.

Heidegger (2015), em sua analtica existencial, refere-se tonalidade afetiva fundamental da angstia. fundamental por ser ela o que poder mover esse ente para o seu acordar. A angstia, enquanto tonalidade fundamental, opera carregando em si a possibilidade de desvelar o si-mesmo, o Dasein desvelar mundo. por isso que a abertura constituda por ela considerada privilegiada (Garcia, 2019).

Oliveira et al. (2021, p. 8) corrobora essa tese, perguntando: por que quando as referncias dadas pelo impessoal falham, surge a angstia? A angstia se depara com o nada, estreita-se a relao entre o Dasein e sua abertura. Angustia-se pelo fato de Dasein ser indeterminado e necessitar, por si mesmo, decidir, a cada vez, no que deve se tornar. Montenegro (2014) diz que, nesses instantes, possvel que rompamos com o cinturo pseudoprotetor gravitacional e nos libertemos do fardo de pertencer a algum lugar, a algumas histrias e expectativas. Assim, haver a luz, sim, e uma vez diante dela, todas as infinitas possibilidades se faro presentes ou de presena provvel. E as palavras, e o falatrio, como so agora, deixaro de ser, e uma nova forma de comunicao se dar. Cdigos mudados, novos enunciados e mais alm (Montenegro 2014, p. 78). A angstia, segundo S e Barreto (2011), remete o homem sua singularidade, ao seu prprio poder-ser-no-mundo. Por sua funo liberadora pode arrastar o homem para a propriedade de seu ser enquanto possibilidade de ser, afastando-o da perspectiva impessoal e objetivante da ocupao cotidiana. Tambm para Dantas, S e Carreteiro (2009), quando as referncias que sustentam a experincia de um mundo simplesmente dado falham, aproxima-se a possibilidade de uma experincia mais prpria do existir enquanto ser-no-mundo. Heidegger (2005) afirma que, os entes s podem se mostrar enquanto tal medida que o ser-a se depara com o nada, pois o nada que pode desvelar o ente em sua totalidade. A angstia, anncio da negatividade da existncia, uma tonalidade afetiva fundamental que, ao descerrar o mundo, rompe com as sedimentaes do mundo ftico, lana o horizonte de sentido, mundo, em uma insignificncia radical (Feijoo, 2011).

Heidegger (1991, p. 39) afirma que a angstia nos suspende porque ela pe em fuga o ente em sua totalidade [...]". Tal suspenso refere-se ao fato de ser-no-mundo, na angstia, pe-se em fuga, dando lugar ao nada, faz com que somente continue presente o puro Dasein no estremecimento desse estar suspenso onde nada h em que se apoiar. Para Inwood (2002, p. 95), quando habitada sem os subterfgios da impessoalidade mediana, a angstia "[...] desempenha um papel similar Epoche de Husserl, despindo as coisas de sua significao habitual". O admitir imediato no uma certeza absoluta. Ter mesmo o carter de uma certeza qualquer? (Heidegger, 2017).

Montenegro (2014, p. 74), em uma perspectiva ntica, com a arte de doirar poeticamente o pargrafo, despede-se quando diz: Em multiversos imensurveis de mirades de estrelas, o aprisionado aceita um toco de vela de luz bruxuleante, como farol nico da vida, no entanto, h vida depois do medo. H luz atrs do quadro sem mudanas do tdio. H movimento, descobertas, cores, brilho, transmutaes! Somente sentem-se prisioneiros os que fecham os olhos para ver mais longe... Os que se contentam com as primeiras revelaes e a elas se apegam, como se verdades fossem por completo e para sempre (Montenegro, 2014, p. 74). No h mais prises, nem guardas de fronteiras, nem balizas ou carta de navegao. Agora o infinito, atravs da lona rasgada do velho circo mambembe, que levou pelos espaos confusos os palhaos hbridos de alegria e tristeza, que fomos ns (Montenegro, 2014, p. 75).

Da Silva e Dcio (2020), dando continuidade a uma reflexo ntica, comentam que vivemos em uma temporalidade corrosiva, que desconecta o ser humano de sua realidade mais prspera e mais equilibrada. Essa desconexo requisitada pelo tempo atomizado que, com sua dinmica, alterou nosso a, levando o homem a um comportamento ansioso em todo convvio social e individual.

Em uma anlise fenomenolgica da ansiedade, Borges-Duarte (2018) diz que ela se expressa pela experincia de acelerao de um tempo sem tempo para hiatos e demoras, um contnuo de momentos fragmentrios, de urgncias diferentes sucedendo-se ininterruptamente sem estarem ligadas entre si. A ansiedade decorre do modo de ser existencial do ser humano, haja vista ser uma correspondncia de ser-no-mundo. Ser-estar-ansioso , portanto, uma condio preconizada pelo seu a, isto , pelo seu ser fora de si, ou seja, o Dasein, de acordo com Da Silva e Dcio (2020, p. 294).

Heidegger (2017, p. 181), em Seminrios de Zollikon, aproxima-se da questo da ansiedade da seguinte forma: [...] o anseio: quem anseia o Dasein. O ansioso o prprio ser-no-mundo. A vida se dando, acontecendo nesse vo enquanto espao, nessa abertura provedora de sentido, esse caldeiro do enquanto, foi o que Heidegger nomeou como existncia, ser-no-mundo, Dasein. Nessa direo, S e Barreto (2011) afirmam que a existncia, enquanto ser-a, a clareira do ser, a abertura na qual o ente destitudo de mundo poder vir ao encontro e revelar-se em seu ser, vir luz. O homem, como essncia, consiste em ter que compreender a si mesmo, nesse fora (ec-sistncia) para o qual est voltado como possibilidade de ser ou no ser ele mesmo, preocupando-se na construo de significados para fugir do vazio existencial e da vida sem sentido, mas enquanto ente cujo modo de ser est em jogo temporalmente (primado ntico) (Heidegger, 2005).

Esse no saber de seu destino que se encontra a todo tempo em jogo no existir temporal, se esclarece quando defende Heidegger que A vida humana encerra em si mesma numa regulamentao temporal (2008, p. 2), o que apontaria para o estado de alerta que nos encontramos que, levado a uma maior intensidade e luta pelo controle, pode ser compreendido onticamente como transtorno de ansiedade?

 

A postura do psicoterapeuta, a atitude fenomenolgica e o ser-no-mundo

A questo que agora se impe e a perspectiva terica que d base postura do psicoterapeuta na clnica afeta diretamente o modo como a queixa de ansiedade vai ser trabalhada? Imaginvamos o cenrio de, a despeito de toda pesquisa amplamente demonstrada nos captulos anteriores, que o manejo do trato clnico ainda se pautasse pela atitude natural, por exemplo. Notadamente, dizamos, que o esforo e sentido dessa pesquisa perder-se-iam se o timoneiro de sua aplicao no estivesse igualmente acordado com tais prerrogativas, estreitamente ligado ao mesmo entendimento. Portanto, qual deveria ser a postura clnica do psicoterapeuta com bases existenciais sob tais circunstncias?

 

Escuta como ao clnica

Oliveira e Borba (2019) dizem que no somente no que tange o comportamento da pessoa atendida, a ao fenomenolgica permite tambm para o psiclogo inclinar-se ao modo de estar consigo prprio e com o outro na clnica psicolgica, uma vez que pode questionar sua prtica e seus fundamentos, aperfeioar sua maneira de atuao, recursos, mtodos e habilidades no processo clnico. Por outro lado, a iminncia de uma ruptura, de uma descontinuidade do poder-ser da existncia, machuca, di e nesse estado que o paciente, mesmo sem ter tanta certeza dessa dor, procura a psicoterapia. Eis o momento raro, valioso, nico em que aquele que procura a psicoterapia abrir sua intimidade com toda crena, e ele o faz no para que algum o veja dentro de uma teoria ou para que elabore uma a partir do que fala, como dito por Sapienza (2004), mas sua existncia se abre para ser compreendida. O psicoterapeuta, claro, como escreve Luczinski (2010), tem sua responsabilidade no desencadeamento desse processo, mas isso no significa onipotncia ou controle. Diz Sapienza (2004) que o paciente tem pressa: primeiro, porque ele est sofrendo; segundo, porque acredita que, se um tratamento bom, deve ser rpido; no entanto, como supor uma fenomenologia apriorstica, aligeirada e ansiosa para a soluo de um problema?

Merleau-Ponty (1999) nos lembra que, ao perceber o outro apenas como um isso, um objeto, h um afastamento da sua presena viva; que acessar o outro como representao desconsiderar a sua humanidade, a vida que lhe dada enquanto homem. Portanto, estar com o outro na clnica supe disponibilizao para o fenmeno que ali se mostra como tal, naquele momento, excluindo da prvios entendimentos ou aparatos tcnicos-esquemticos sobre a mente do outro, que no a minha, que no sou eu. Pompeia e Sapienza (2004, p. 169) descrevem psicoterapia como [...] a procura, via poiesis, pela verdade que liberta para a dedicao ao sentido.

 

O saber apriorstico e a suspenso

O risco dos aconselhamentos, das orientaes a partir da sabedoria de vida e as prescries de autoajuda, segundo Feijoo e Protasio (2010), apontam para a necessidade da tutela daquele que sabe, orienta e ensina como auto ajudar-se, tal como proposto em um horizonte cientificista ou do senso comum, nos quais reina o ideal de verdade, vontade, transparncia e mtodo e isso no constri a autonomia to necessria ao paciente. Mahfoud (1989, p. 574) lembra que no o saber isolado nem do terapeuta, nem do cliente, pois, "[...] no sou eu - por mim mesmo - que consigo que o outro faa certo caminho e mude, se abra e se centre. No nem o outro por si mesmo - tanto que pede ajuda. Mas cada um participa com o que , terceiro elemento, integra e compe um movimento". H um dito popular que diz: Cada cabea, uma sentena. Nada mais esclarecedor para o psicoterapeuta que insiste em um atendimento tecnicista em que as coordenadas j esto postas como blocos de mensurao sobre o paciente. Ora, cada pessoa reage de forma distinta enquanto afeto e emoes que compem seus atos psquicos, portanto impacta-se com o mundo ao redor; responder a ele, segundo (Ales Bello, 2004), trata-se de uma capacidade inerente a todos os seres humanos, porm os fenmenos a que reagem, o contedo e o modo dessas reaes sero diferentes para cada um. Isso nos parece decorrer da insistncia na atitude natural de Husserl que nos leva a considerar aquilo que encontramos no mundo, o fenmeno, como se pronto j fosse, desde sempre, ignorando completamente, por tal, nossa relao de sentido com o que nos dado. Colocar-se em perspectiva fenomenolgica , para S e Barreto (2011, p. 2) suspender essa suposio "natural de uma realidade em si", realizar uma epoch retornando para as coisas apenas enquanto dadas experincia; envolver-se em um modo de ateno em que experienciamos com toda evidncia que o mais concreto no essa suposta "realidade-em-si" do mundo, mas sempre o prprio acontecimento imanente da experincia enquanto dinmica constitutiva de sujeito e objeto.

 

A postura clnica e a tcnica

A postura clnica para a analtica existencial ainda passa pela preocupao com a forma exacerbada do uso da tcnica na qual parece querer estabelecer vida, movimento de ser-no-mundo, como forma exata, traada, preparada, puramente tecnicista, mas, ser-no-mundo atravs de um manual de procedimentos tcnicos, e no como possibilidade do vir-a-ser, o mundo, enquanto sentido, no est sendo questionado, apenas se instalando como verdade. Assim, a tcnica, como posta, parece mais uma continuao do falatrio do impessoal. A tcnica no cuida, descuida, diz Feijoo (2010), no deixa que as coisas surjam a seu modo na natureza. O homem jogado no mundo, dizem Pompeia e Sapienza (2011), na impessoalidade, no todo mundo, absorvido pela vontade autnoma da tcnica. Para Heidegger (2017, p. 53), temos a pretenso de determinar o ser homem por meio de um mtodo que absolutamente no foi projetado em relao sua essncia peculiar.

Esse maravilhamento e seduo pela tcnica, como tal, tampona a falta da busca; coisifica a grandeza do ato psicoteraputico; ela deve somar e no se apresentar como o resultado final da operao. O problema com a tcnica, para S (2017), diz respeito disposio de fascnio que ela imps ao homem, fazendo com que o sentido dos entes, sua essncia, se reduzisse exclusivamente ao aspecto que ela, tcnica, desvela. Como tcnica ela o enquadre, o inspido, um conhecimento operatrio, o correto, mas seria o verdadeiro? O desvelamento que rege a tcnica moderna uma pro-vocao (Herausfordern) pela qual, diz Heidegger (2012, p. 20), a natureza intimada a entregar uma energia que possa, como tal, ser extrada (herausgefordert) e acumulada. Seria o forosamente extrado de forma correta, o verdadeiro? O pensar o pensar do ser. Assim, onde o pensar posto de lado, a tcnica (tkhne) valorizada (Heidegger, 2005, p. 13).

A anlise hermenutica essencialmente interativa e implica a autocompreenso do intrprete no processo de compreenso do outro (S, 2017). Praticar a psicoterapia em uma perspectiva fenomenolgica, diz Feijoo (2010), implica substituir a interpretao explicativa terica pela hermenutica compreensiva, que se constitui em uma possibilidade de desvelar sentidos a partir daquilo que se manifesta por meio da compreenso.

 

 

A postura clnica e o ser-no-mundo

Em Heidegger (2012), a experincia ser estudada como a existncia que se coloca ao ser-a em seu ser-no-mundo. Sua anlise fenomenolgica parte da existncia humana, do ser-a, do movimento do ente, de onde se originam os sentidos. Verifiquemos, pois, a postura do psicoterapeuta sob tal entendimento. O ente, em seu ser-no-mundo, viver sob as trombetas do falatrio impessoal e sua singularidade pode se dar por aquilo que do impessoal ele se apropria.

Ter-que-ser-si-mesmo, segundo Oliveira et al. (2021), j comumente ocultado pelo falatrio do impessoal, mas que, durante um processo psicoteraputico, pode ser desvelado pelo paciente como espao para a construo de um projeto existencial prprio. Essa anlise existencial como possibilidade de cuidado clnico, de acordo com Mattar (2019), acontece como despsicologizao do olhar, da escuta e das situaes de sofrimento que se do em seu mostrar-se. A anlise existencial a suspenso das determinaes j dadas para que o campo fenomnico possa aparecer. Em Heidegger (2012), vemos que no se pode recair em simplificaes nticas predicativas acerca do ente, pois isso pressupe uma relao apontada e dada, na qual j se tenha revelado em suas possibilidades. Abre-se mo da verdade da existncia, completam Morato e Sampaio (2019), em nome de uma verdade universal e correta das cincias naturais, familiaridade cotidiana que tende a encobrir qualquer surpresa e, no entanto, estranhar realizar um esforo de questionar o j sabido e de no se sentir em casa. Heidegger (2012) pontua que o estranhamento (Unheimlichkeit) fala de uma perda da cotidianidade mediana, retirando-nos da segurana do familiar. Ou, ainda, a expresso a prontido serena de espantar-se em sua conferncia sobre a tcnica moderna (Heidegger, 2012, p. 25), como uma escuta que se alinha com o verdadeiro, o desocultamento, o essencial, no o exato, o relatado, o informado.

Ora, se o desconhecimento da singularidade prprio da impessoalidade, o ente, mesmo a na impessoalidade, acha que j conheceu tudo, ele no sabe o que existe alm, isso extrapola seu conhecimento. Ao terapeuta, portanto, cabe, de forma indireta e com muito jeito, instigar a possibilidade do abrir-se subjetividade. Feijoo (2008) esclarece que, partindo do pressuposto de que o homem se constitui no mundo, em um jogo de ser si-mesmo e no ser si-mesmo, fica muito fcil tornar-se presa dos ditames do pblico. No entanto, esse homem acredita ter total liberdade na sua escolha, quando, na realidade, escraviza-se s solicitaes do mundo moderno. A clnica, sob o pensamento existencial, procura desvelar o ser do homem, resgatando suas estruturas existenciais, negando teorias que no estejam alinhadas com o sentido da existncia. Para a perspectiva fenomenolgico-existencial, o importante no responder pelo paciente, mas acompanh-lo, quebrando as habitualidades e desconstruindo o impessoal (S & Barreto, 2011). psicoterapia cabe acompanhar aquele que esqueceu do seu carter de poder-ser e, no desvelamento de sua situao, como escreve Feijoo (2010), poder resgatar a possibilidade de sua liberdade e ao psicoterapeuta - em uma proposta fenomenolgico-existencial, assumindo uma atitude antinatural - tentar, em um exerccio do cuidado no modo da preocupao, assumir uma postura libertadora em um desvelamento das possibilidades do ser-a. No h nenhum direcionamento, mas a desconstruo das meras opinies ditadas pelo falatrio do impessoal e a quebra das habitualidades abrem fissuras que, como ensina Heidegger (2017, p. 101), deixam entrever possveis mudanas, transformando o acontecer clnico em experincia apropriada e tematizada, constituda por aceitar simplesmente aquilo que se mostra no fenmeno do tornar presente e nada mais". Para Pompeia e Sapienza (2004, p. 169), possvel afirmar que a "terapia a procura, via poiesis, pela verdade que liberta para a dedicao ao sentido". E o que dizer do ser-a em seu ser-no-mundo quando, enfim, atingido pela angstia ontolgica, silente e surdo ao falatrio impessoal, balanado e prestes a revelar possibilidades que, sob cuidados atentos do terapeuta, propiciem sua emerso singularidade?

Eis a tarefa do psicoterapeuta existencial: resgatar o homem singular que se encontra perdido no geral, pelo dilogo, na maior parte do tempo, de forma indireta, reconhecendo-se em seu projeto, naquilo que lhe mais fundamental, estando sempre atento para que ele, o terapeuta, ao invs de propiciar tal resgate, no venha se deixar perder no geral, nas demandas e nos convites doirados do mundo. A sereia canta! Terminemos com o apaziguamento do nosso mestre da analtica existencial: Em suas palavras, Heidegger (1959, p. 25) diz: a serenidade em relao s coisas e a abertura ao segredo so inseparveis. Concedem-nos a possibilidade de estarmos no mundo de um modo completamente diferente.

 

Manejos clnicos em situaes de ansiedade

Podemos perceber a prevalncia e decorrente relevncia da ansiedade em nossa contemporaneidade como sofrimento corriqueiro em parte expressiva de nossa sociedade ps-moderna, assim como inexpressivo conhecimento desse pblico ansioso e sofrido sobre o melhor entendimento e tratamento desse transtorno que tanto desgasta, debilita, exaure e adoece seu portador. Por tal desconhecimento sobre esse sofrimento existencial, muitos encaminhamentos ainda esto sobre o protetorado de diagnsticos meramente estabelecidos pelos sinais e sintomas ou por entendimentos causalistas e explicativos em uma viso aligeirada, medicamentosa e patologizante, num vis, predominantemente, biomdico sobre a experincia da dor na qual o foco a cura e a eliminao dos sintomas.

Podemos enxergar o tratamento psicoterpico como alternativa ao tratamento biomdico patologizante e no somente isso, mas, e principalmente, que seja ancorado numa psicologia que no se limite ao jugo da cientificidade e da eficincia da tcnica. As evidncias so claras em se tratando das contribuies da atitude fenomenolgica para a compreenso da ansiedade, como alternativa ao homem ansioso ao modo positivista, objetivo, constituintes da atitude cientfica natural. O mtodo de Edmund Husserl via atitude fenomenolgica como instruo de retorno s coisas em si mesmas, captando o sentido do fenmeno como ele se mostra em sua essncia, capacitando as vivncias puras da conscincia, habilita a esse homem ansioso ter maior compreenso de sua ansiedade uma vez que passar a entender mais e melhor o fenmeno como se apresenta e no como compreenso apriorstica, tcnica, simplista, natural, que poder enganar sua percepo, levando-a a distorcer tal fenmeno, causando-lhe ansiedade e sofrimento por algo que sequer existe, posto que percebido distorcidamente.

A analtica existencial, por sua vez, traz cena a movimentao do ente em seu espao originrio de significaes numa relao de ser-no-mundo em seus modos existenciais, em sua temporalidade, em seu exerccio de apenas poder-ser, de estar inserido, em contato com os afetos mais dspares em uma relao de sentido ou ainda na falta dela, em sua performance relacional, nas experincias fticas que ocupam sua rotina existencial. Se a ansiedade pode decorrer da? Sim. humanamente possvel, que sim. possvel perceber, ainda, que os benefcios da reflexo, da contemplao, da suspenso, assim como o conhecimento de sua possvel emerso singularidade, da beleza decorrente do ato de pensar, poderiam trazer a esse Dasein ansioso o refrigrio das dopaminas da surgidas, com as quais o corpo humano acostumou-se enquanto bem-estar; no entanto, a anestesia da multido, o torpor do impessoal o fazem suprir essa falta por psicofrmacos imediatos, direto na veia, substituindo e cancelando at o exerccio libertador de sua procura, de sua prpria produo meditativa. "O ser-a o que, sendo, est em jogo como seu prprio ser" (Heidegger, 2012, p. 303).

Toda essa viagem pelo pensamento dos autores pesquisados passa pelo questionamento inicial do problema desta pesquisa, quando perguntvamos: de que maneira o trato clnico, luz da atitude fenomenolgica e da relao do ser-no-mundo, pode compreender a experincia da ansiedade? Dessa forma, nosso esforo de pesquisa encontrou resposta e nesse sentido veio dizer que sim, confirmando, de modo largo, nossas hipteses.

Releve-se, ainda, a postura do psicoterapeuta no atendimento clnico enquanto profissional ocupado com a existncia, abrindo possibilidades ao dilogo entre as diferenas, buscando uma abertura com o outro, suscitando o questionamento daquilo que j vem pronto na tentativa de transpor a lgica individualista e dicotmica que apequena e discrimina o divergente enquanto experincia humana existencial.

 

Consideraes finais

Chegamos ao final de nossas consideraes sobre a ansiedade e os manejos clnicos e sentimos falta de mais pensadores virtuando no caminho de nosso trabalho. medida que avanou-se na pesquisa, entendeu-se melhor a relevncia de seu perfil como gerador de novas linguagens, como libertador de um entendimento encurtado, to vasto e profundo so os corredores da existncia humana em seu ser-no-mundo. Sendo um assunto to amplo e to profundo e que carrega tantas benesses, imaginvamos ter sido muito mais estudado e publicado. Espera-se, ainda, por uma pesquisa de campo com entrevistas para quantificao percentual de terapeutas da abordagem fenomenolgica-existencial que estejam atentos ao uso das contribuies da atitude fenomenolgica e a relao ser-no-mundo para melhor compreenso da ansiedade, pensando-a como um modo possvel de expresso da angstia. Trilhamos, agora, esse caminho e esperamos que outros continuem a trilh-lo.

 

Referncias bibliogrficas

Ales Bello, A. (2004). Fenomenologia e cincias humanas. Bauru: EDUSC

Baptista, A., Carvalho, M. & Lory, F. (2005). O medo, a ansiedade e as suas perturbaes. Psicologia, 19(1/2), 267277. Recuperado de https://doi.org/10.17575/rpsicol.v19i1/2.407

Belmino, M. C. B. (2020). Gestalt-terapia e experincia de campo: dos fundamentos prtica clnica. (1 ed.). Jundia: Paco.

Borba, J. M.P., Silva, L. V. C. da & Oliveira, T. C. A. (2017). A escuta na clnica fenomenolgica e os fundamentos da fenomenologia husserliana. Em: Pimentel, A., Lemos, F. & Nicolau, R. (orgs.). A escuta clnica na Amaznia. (Vol. 1). Belm: EDUFPA.

Borges-Duarte, I. (2018). Sossego e desassossego: o paradoxo do tempo vivido. Em: Dutra, E. (org.). O desassossego humano na contemporaneidade. Textos apresentados III Congresso Brasileiro de Psicologia & fenomenologia. (1 ed.). Rio de Janeiro: Via Verita.

Brando, C. L. (2017). Da estranheza ao encantamento: a riqueza existencial presente nas formas psicticas de ajustamento. Em: Brando, C. L. (Org.). Semeando a Gestalt-Terapia: experincias clnicas no contexto amaznico. (1 ed.). Belm: Paka-Tatu, pp. 59-79.

Caprara, A. (2003). Uma abordagem hermenutica da relao sade-doena. Cadernos de Sade Pblica, 19, 923-931.

Carvalho, R. (2023). Porque o Brasil tem a populao mais ansiosa do mundo. BBC News Brasil, So Jos do Rio Preto, 27 fev. 2023. Recuperado de https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4ne681q64lo

Casanova, M. A. (2015). Compreender Heidegger. (5 ed.). Petrpolis: Vozes.

Casanova, M. A. (2017). Mundo e historicidade: leituras fenomenolgicas de ser e tempo: (Vol. 1: existncia e mundanidade). Rio de Janeiro: Via Verita.

Castillo, A. R. G. L. et al. (2000). Transtornos de ansiedade. Brazilian Journal of Psychiatry, 22, 20-23.

Da Silva, R. H. & Dcio, R. Um olhar fenomenolgico sobre as crises existenciais na contemporaneidade. Revista de Filosofia Moderna e Contempornea, 8(1) 285-305.

Dalgalarrondo, P. (2008). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. (2 ed.). Porto Alegre: Artmed.

Dantas, J. B., Sa, R. N. de & Carreteiro, T. C. O. C. (2009). A patologizao da angstia no mundo contemporneo. Arq. bras. psicol. Rio de Janeiro, 61(2), 1-9, ago.2009 Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672009000200010&lng=pt&nrm=iso

DATASUS. Ministrio da Sade. (2021). Departamento de Informtica do Sistema nico de Sade. CID 10. Braslia.

Faria, N. J. (2017). Noes de cuidado na ateno bsica sade e Gestalt-Terapia. Em: Faria, N. J. & Holanda, A, F. (Orgs.). Sade mental, sofrimento e cuidado: fenomenologia do adoecer e do cuidar. Curitiba: Juru Editora. pp.15-32.

Feijoo, A. M. L. C. de. & Protasio, M. M. (2010). Os desafios da clnica psicolgica: tutela e escolha. Rev. Abordagem Gestalt, Goinia, 16(2), 167-172, dez. 2010. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672010000200006&lng=pt&nrm=iso

Feijoo, A. M. L. C. de. (2008). A filosofia da existncia e os fundamentos da clnica psicolgica. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 8(2), 0-0, 2008.

Feijoo, A. M. L. C. de. (2010). A escuta e a fala em psicoterapia: uma proposta fenomenolgico-existencial. (2 ed.). Rio de Janeiro: IFEN

Feijoo, A. M. L. C. de. A clnica Daseinsanaltica: consideraes preliminares. Rev. Abordagem Gestalt. Goinia, 17(1), 30-36, jun. 2011. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672011000100006&lng=pt&nrm=iso

Garcia, L. R. As tonalidades afetivas em M. Heidegger. (2019). STVDIVM, III, 149-160.

Heidegger, M. (1959). Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget.

Heidegger. M. (1991). Conferncias e escritos filosficos. (4 ed. Stein, E. Trad.). So Paulo: Nova Cultural.

Heidegger, M. (2005). Carta sobre o humanismo. (2. ed. rev. trad. Frias, R. E Trad.). So Paulo: Centauro.

Heidegger, M. (2008). El concepto de tiempo. (Escudeiro, J. A. Trad.). Barcelona: Herder Editorial.

Heidegger, M. (2012). Ser e tempo. (Castillo, F. Trad.). Petrpolis: Vozes.

Heidegger, M. (2013). Ontologia. Hermenutica da facticidade. (Kirchner, R. Trad.). Petrpolis: Vozes.

Heidegger, M. (2015). Conceitos fundamentais da metafsica: mundo, finitude, solido. (2 ed. Casanova, M. A. Trad.). Rio de Janeiro: Forense Universitria.

Heidegger, M. (2017). Seminrios de Zollikon: protocolos, dilogos, cartas. (3 ed. Editado por Medard Boss; traduo: Gabriela Arnhold, Maria de Ftima de Almeida Prado; reviso da traduo: Maria de Ftima de A. Prado e Renato Kirchner). So Paulo: Escuta.

Inwood, M. (2002). Dicionrio Heidegger Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Kierkegaard, S. A. (1843/2010). O conceito de angstia. (Trad. . L. Valls). Petrpolis: Vozes, So Paulo: Editora Universitria So Francisco.

Luczinski, G. F. & Ancona-Lopez, M. (2010). A psicologia fenomenolgica e a filosofia de Buber: o encontro na clnica. Estudos de Psicologia, Campinas, 27, 75-82. Recuperado de https://doi.org/10.1590/S0103-166X2010000100009

Mahfoud, M. (1989). O eu, o outro e o movimento em formao. Em: Sociedade Brasileira de Psicologia (Org.), Anais da XIX Reunio Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, Ribeiro Preto, SP, pp.545-549.

Manual Diagnstico e Estatstico de Transtornos Mentais (2014). DSM-5. American Psychiatric Association APA. (5 ed.). Porto Alegre: Artmed.

Mattar, C. M. (2019). A escuta clnica: entre a psicologizao e a anlise fenomenolgico-existencial. Arquivos do IPUB. Rio de Janeiro, 1, 72-87.

May, R (1950/1980). O significado da ansiedade: As causas da integrao e desintegrao da personalidade. (4 ed.). Rio de Janeiro: Zahar.

Merleau-Ponty, M. (1945/1999). Fenomenologia da percepo (2 ed.). So Paulo: Martins Fontes.

Montenegro, V. (2014). Porcelana Chinesa: Iniciao Filosofia Potica. (1 ed.). So Paulo: All Print Editora.

Morato, H. T. P. & Sampaio, V. F. (2019). A escuta clnica como um pesquisar fenomenolgico existencial: Uma possibilidade no horizonte da realizao da existncia. Arquivos do IPUB, 1, 102-115.

Oliveira, G. M. de et al. (2021). A angstia existencial como disposio afetiva fundamental para a prtica psicoterpica. Rev. Abordagem Gestalt, Goinia, 27(3), 348-360, dez. 2021. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672021000300010&lng=pt&nrm=iso e http://dx.doi.org/10.18065/2021v27n3.9

Oliveira, T. C. A. & Borba, J. M. P. (2019). Contribuies da fenomenologia Husserliana para a Psicologia Clnica. Rev. NUFEN, Belm, 11(3), 154-169, dez.  2019. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912019000300010&lng=pt&nrm=iso e http://dx.doi.org/10.26823/RevistadoNUFEN.vol 11.n 03 ensaio 52.

OMS Organizao Mundial da Sade. (2017). Depression and Other Common Mental Disorders. Global Health Estimates. Geneva.

Penha, J. da. (1982). O que existencialismo. So Paulo: Brasiliense.

Pinto, E. B. (2017). A ansiedade e seus transtornos na viso de um Gestalt-terapeuta. Em: Frazo, L. M. & Fukumitsu. K. O. (orgs.). Quadros clnicos disfuncionais e Gestalt-terapia. So Paulo: Summus. pp. 93-115.

Pinto, . B. (2021). Dialogar com a ansiedade: uma vereda para o cuidado. So Paulo: Summus.

P, G. S. M. A fenomenologia do tdio no Livro do Desassossego: de Martin Heidegger a Fernando Pessoa. 2015. Tese (Doutorado) - Universidade de Evora (Portugal).

Pompeia, J. A. & Sapienza, B. T. (2004). Na presena do sentido: uma aproximao fenomenolgica a questes existenciais bsicas. So Paulo: EDUC.

Pompeia, J. A. & Sapienza, B. T. (2011). Os dois nascimentos do homem: escritos sobre terapia e educao na era da tcnica. Rio de Janeiro: Via Verita.

Rocha Neto, H. G. & Messas, G. (2016). O diagnstico psiquitrico pelo modelo operacional e pela psicopatologia fenomenolgica: um paralelo entre os modelos, atravs de um estudo de caso. Psicopatologia Fenomenolgica Contempornea, 5(1), 22-24.

S, R. N. & Barreto, C. L. B. T. (2001). A noo fenomenolgica de existncia e as prticas psicolgicas clnicas. Estudos de Psicologia, Campinas, 28, 389-394. Recuperado de https://doi.org/10.1590/S0103-166X2011000300011

S, R. N. (2017). A Psicoterapia e a questo da Tcnica. Em: S, R. N. Para alm da tcnica: ensaios fenomenolgicos sobre psicoterapia, ateno e cuidado. (pp. 63-79). Rio de Janeiro: Via Verita

Sapienza, B. T. (2004). Conversa sobre terapia. EDUC-Editora da PUC-SP.

Silva, P. S. G. (2007). A fenomenologia de Husserl: uma breve leitura. Brasil Escola.

Silva, V. D. M. et al. (2021). A ansiedade do ser no mundo: um olhar existencial-humanista. Psicologia: abordagens tericas e empricas, 1(1), 84-97.

World Health Organization. (1992). The ICD-10 Classification of Mental and Behavioural Disorders: Clinical Descriptions and Diagnostic Guidelines. World Health Organization

World Health Organization. (2022). Mental health and COVID-19: early evidence of the pandemics impact: scientific brief, 2 March 2022. In: Mental health and COVID-19: early evidence of the pandemics impact: scientific brief, 2 March 2022.

 

Curriculum 

Antnio Astrio Rodrigues

Bacharel em Psicologia pela Unidade de Ensino Superior Dom Bosco (UNDB). Associado do Instituto de Psicologia Fenomenolgico-Existencial do Rio de Janeiro (IFEN) e Ps-Graduando na Especializao em Psicologia Clnica na Perspectiva Fenomenolgico-Existencial do IFEN, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. CRP 22/05970.

 

Correo de contacto:

asteriopassarinho@gmail.com


Ana Mara L. C. de Feijoo

Investigadora de la Universidad del Estado del Rio de Janeiro (UERJ) y del Centro Nacional de Pesquisa (CNPQ). Profesora Titular de la graduacin y postgrado en Psicologa Social en la Universidad del Estado del de Rio de Janeiro. Estudios postdoctorales en filosofa en la Universidad Federal del Rio de Janeiro (UFRJ) (2010), doctorado en Psicologa de la UFRJ (2000) y maestra en Psicologa por la Fundao Getlio Vargas (FGV/ISOPE - 1983). Investigadora de situaciones de suicidio y duelo.

 

Correo de contacto:

ana.maria.feijoo@gmail.com

 

Fecha de entrega: 2/12/2025

Fecha de aceptacin: 29/12/2025


 



[1] The total estimated number of people living with anxiety disorders in the world is 264 million. This total for 2015 reflects a 14.9% increase since 2005 [5], as a result of population growth and ageing.

 

[2] An estimated 25.6% increase (95% UI: 23.228.0) in cases of anxiety disorders (AD) worldwide in 2020. Females were more affected than males, and younger people, especially those aged 2024 years, were more affected than older adults.

 

Enlaces de Referencia

  • Por el momento, no existen enlaces de referencia